Tecnologias desenvolvidas na universidade são transformadas em produtos

06 de outubro de 2026

Um bioinsumo de origem vegetal que ajuda a fortalecer a imunidade da tilápia, um sistema de inteligência artificial que identifica falhas em redes elétricas e um implante ortopédico desenvolvido para cirurgias de fêmur são tecnologias com origens distintas, mas que percorreram uma trajetória semelhante até chegar ao mercado. Desenvolvidas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), elas foram reconhecidas na categoria Tecnologia Absorvida pelo Mercado na 19ª edição do Prêmio Inventores Unicamp 2026, evento organizado anualmente pela Inova Unicamp.

Em comum, os três casos mostram diferentes formas de transformar resultados de pesquisa em produtos, processos e serviços para diferentes setores do mercado com impactos sociais, econômicos e ambientais.

O Terpenia Acqua, bioinsumo desenvolvido para melhorar a resposta imunológica e o desenvolvimento da tilápia, teve como base o extrato da planta artemísia. A tecnologia foi desenvolvida em parceria entre pesquisadores da Unicamp, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Depois do depósito da patente, a pesquisa avançou para o desenvolvimento de um produto comercial em parceria com a empresa Terpenia Bioinsumos, apoiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP.

Em 2021, a Embrapa e a Terpenia iniciaram um projeto de inovação aberta, que resultou no licenciamento da tecnologia pela empresa, com articulação da Inova Unicamp e da Agência de Inovação da UFSCar. Testes em laboratório e, posteriormente, em escala industrial, com 64 mil peixes, demonstraram a viabilidade de aplicação do produto em larga escala. Depois de passar por desenvolvimento e adequações para a produção, o produto foi lançado no mercado em setembro de 2025.

Varredura automática das redes

Um movimento parecido ocorreu com o Thermovision (MVI), sistema desenvolvido para automatizar a inspeção de redes de distribuição de energia. A solução, desenvolvida a partir de um projeto entre a Unicamp e a CPFL Energia por meio de um programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), combina inteligência artificial, visão computacional e câmeras ópticas e térmicas para identificar anomalias associadas ao superaquecimento de componentes elétricos. Embarcado em veículos, o sistema realiza a varredura automática das redes enquanto o carro percorre rotas programadas, gerando relatórios sem a necessidade de intervenção dos técnicos em campo.

O desenvolvimento contou com desafios como a integração de imagens ópticas e térmicas, a compensação das vibrações e movimentos do veículo e o treinamento dos algoritmos para reconhecer os equipamentos e classificar anomalias. A patente foi licenciada para a Kasco Tecnologia, spin-off acadêmica da universidade também apoiada pelo PIPE-FAPESP que reúne, entre seus sócios-fundadores, egressos que participaram da invenção.

O sistema já está em operação em três veículos nas quatro distribuidoras da CPFL Energia e também foi exportado para o Equador. De acordo com a empresa licenciada, o serviço reduziu em 85% os custos por quilômetro inspecionado e pode ser até quatro vezes mais rápido que o método convencional.

Na área da saúde, um dispositivo implantável para fixação de fraturas do colo do fêmur tem se mostrado amplamente eficaz e caminha como uma solução vantajosa na aplicação clínica. Pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp desenvolveram o dispositivo especificamente para esse tipo de fratura. Em vez de adaptar implantes destinados a outras aplicações, esses novos dispositivos foram projetados para atender às demandas de fraturas complexas no colo femoral. O sistema caracteriza-se por sua instalação dentro do canal medular, facilitando o procedimento operatório. Além das vantagens mecânicas de funcionamento, a técnica resulta em respostas clínicas altamente satisfatórias.

O projeto resultou de um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) entre a Unicamp e a empresa Hexagon. Com o licenciamento formalizado, a Hexagon avançou para a produção dos dispositivos e iniciou os ensaios clínicos em centros públicos de referência em Campinas, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador. A empresa também já estruturou os recursos necessários para a produção e distribuição em escala, com prioridade para distribuição à rede pública de saúde conveniada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

A transferência de tecnologias para empresas é parte de um processo mais amplo de interação entre universidade e mercado. Em 2025, a Unicamp, por meio da Inova Unicamp, assinou 38 novos contratos de transferência de tecnologia, elevando para 254 o número de acordos ativos. No mesmo ano, os contratos geraram cerca de R$ 1,28 milhão em ganhos econômicos que incluem royalties para a universidade.