Pasta moldável foi idealizada para aplicação em pequenas fissuras e para o preenchimento de falhas ósseas extensas (foto: divulgação/Bioactive)

‘Superenxerto’ reconstrói ossos e combate infecções simultaneamente

08 de setembro de 2026

Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Um dos maiores desafios no tratamento de fraturas graves é reconstruir o osso que foi danificado sem abrir brechas para infecções bacterianas. A startup paulista BioActive Biomateriais desenvolveu uma solução para esse dilema, com apoio da FAPESP. Os engenheiros da empresa criaram um enxerto inteligente que funciona como um “andaime” temporário: o produto oferece a estrutura necessária para as células se apoiarem e crescerem enquanto, simultaneamente, combate infecções de forma ativa.

O segredo dessa eficácia reside em sua formulação trifásica. Ao combinar três materiais distintos – sulfato de cálcio, hidroxiapatita e fosfato tricálcico –, a startup criou uma solução otimizada para a regeneração óssea. Essa mistura foi planejada estrategicamente para que o material desapareça no ritmo ideal: enquanto o sulfato de cálcio se dissolve rapidamente para abrir espaço para as novas células que estão surgindo no processo de regeneração, os outros dois componentes degradam-se de forma mais lenta, garantindo que o local tenha suporte firme por um período prolongado.

Além da reconstrução estrutural, o enxerto combate doenças como a osteomielite, infecção óssea que frequentemente torna os tratamentos ortopédicos lentos e dolorosos. Para assegurar essa proteção, a empresa incorporou ao material três íons metálicos – prata, zinco e estrôncio – com funções específicas. Enquanto a prata e o zinco barram a proliferação bacteriana, o estrôncio atua em duas frentes vitais: estimula as células que constroem osso (osteoblastos) e freia as que destroem o tecido (osteoclastos).

“A proposta de combinar três compostos funcionais com íons antimicrobianos é inédita no mercado de biomateriais”, diz ao Pesquisa para Inovação Karen Grancianinov, engenheira química responsável pelo projeto. Segundo ela, embora estudos acadêmicos explorem fórmulas similares, a BioActive é a primeira a transformar esse conhecimento científico em um produto comercial viável.

Diferente dos produtos convencionais, que atuam apenas como preenchedores passivos, a nova tecnologia apresenta propriedades integradas. Como explica a pesquisadora, o material é biocompatível (aceito pelo corpo sem rejeição), biorreabsorvível (absorvido pelo organismo conforme o osso cresce) e osteocondutor (serve como um guia estrutural para o novo tecido).

Praticidade no centro cirúrgico

A versatilidade é outro trunfo dessa tecnologia. O material é apresentado em pó e, ao ser misturado com um líquido durante a cirurgia, transforma-se em uma pasta moldável semelhante ao cimento. Essa consistência permite que o médico injete a solução em pequenas fissuras ou modele o produto para preencher falhas ósseas extensas em braços e pernas, ou em procedimentos de implantes dentários.

Tipicamente, nessas situações, os cirurgiões recorrem ao "autoenxerto" – a retirada de osso do próprio paciente –, um procedimento doloroso que exige uma segunda área cirúrgica e amplia os riscos. Em outros países, utiliza-se o "aloenxerto" (osso de doador), mas, como essa prática é proibida no Brasil, a inovação da BioActive surge como uma alternativa tecnológica de ponta para sanar essa lacuna no mercado nacional.

“A versatilidade do enxerto elimina, em muitos casos, a necessidade de outros procedimentos cirúrgicos, reduzindo riscos e tempo de recuperação”, destaca Grancianinov.

O produto está em fase inicial de testes em modelos animais. O próximo passo será a realização de um estudo clínico em humanos, que precisará ser aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – órgão responsável por autorizar a posterior comercialização

Independência tecnológica

Além do ganho clínico, o desenvolvimento dessa tecnologia, que conta com financiamento do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, contribui para diminuir a dependência tecnológica do país. Atualmente, a maior parte dos enxertos usados no Brasil é importada, deixando hospitais vulneráveis a variações cambiais. Para Felipe Bisson, diretor comercial da BioActive, o investimento nacional é uma estratégia de longo prazo.

"Poderíamos trazer uma solução pronta do exterior, mas escolhemos desenvolver aqui para obter algo diferenciado. A proposta é ser uma ponte entre a universidade e a indústria", afirma Bisson.

No horizonte, a meta é a inclusão do enxerto no Sistema Único de Saúde (SUS), um passo fundamental frente ao envelhecimento populacional e ao aumento de doenças crônicas que demandam regeneração óssea. "O envelhecimento populacional aumenta a demanda por tratamentos de regeneração. À medida que os profissionais entendem as especificidades de cada material, o mercado cresce", avalia Bisson.

A transição da bancada do laboratório para o centro cirúrgico, contudo, exige extremo rigor. Atualmente, a equipe da BioActive trabalha na transposição da escala laboratorial para a industrial. "Desenvolvimento acadêmico e industrial têm velocidades diferentes", observa Grancianinov, apontando que adaptar a produção de poucos gramas de material para centenas de quilos representa um desafio técnico constante.

Com o setor global de biomateriais projetado para alcançar mais de US$ 200 bilhões até 2033, a BioActive já olha para além das fronteiras brasileiras, com planos de expansão para América Latina, Ásia e Europa. Enquanto as aprovações regulatórias não chegam, a startup segue investindo em educação continuada para médicos, reforçando que, para o paciente, a tecnologia tem um propósito claro: retomar a autonomia e voltar a viver sem dor.