Pesquisadores mapeiam iniciativas na Amazônia que inspiram o futuro da inovação
12 de maio de 2026Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – No calor úmido da Amazônia, onde a biodiversidade ainda guarda respostas desconhecidas, um grupo de pesquisadores vinculados ao CEPID Bridge: Gestão de ecossistemas para transições sustentáveis – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP – iniciou um mapeamento de soluções de inovação construídas com quem vive na floresta. Durante uma missão à região, realizada em fevereiro de 2026, eles iniciaram uma pesquisa sobre iniciativas que combinam tecnologia de ponta, saber local e uma nova forma de pensar inovação.
O início do trabalho foi marcado por uma ação de recomposição ambiental. No Alto Xingu, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Uatumã, as pesquisadoras Silvia Tommaso e Aline Homrich, vinculadas ao CEPID Bridge, a professora canadense Oana Branzei, da Ivey Business School, de Ontário, e comunidades locais presenciaram a soltura de 40 mil quelônios — tartaruguinhas típicas da região. O gesto, simbólico e prático, sintetiza a proposta: restaurar ecossistemas com participação ativa de quem vive neles.
Roberto Bernardes, coordenador do Programa de Pesquisa em Ecossistemas Digitais do CEPID Bridge e professor do Programa de Pós-Graduação em Administração do Centro Universitário FEI, conta que o objetivo da missão foi entender como ecossistemas de inovação surgem na Amazônia, quem são seus atores e de que forma as soluções tecnológicas desenvolvidas lá se conectam — ou não — com o restante do Brasil e com o mundo. “Queríamos entender como os atores locais buscam soluções para restaurar a biodiversidade e como isso pode se conectar com ciência avançada e inovação com inclusão e bem-estar social”, conta.
Dados científicos recentes indicam que esse tema é urgente. Em 2025, o Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, da Alemanha, confirmou que a acidificação dos oceanos já ultrapassou o limite planetário considerado seguro. Desde o início da era industrial, a acidez oceânica aumentou entre 30% e 40%. Na prática, isso significa que os ecossistemas naturais estão perdendo a capacidade de se autorregular e que organismos que formam conchas e esqueletos de carbonato de cálcio, como corais e moluscos, e espécies cruciais de plâncton estão ameaçados — com impacto em toda a cadeia alimentar marinha.
Ciência que aprende com a floresta
Segundo Bernardes, a Amazônia é uma das chaves para enfrentar esse cenário. Por lá, o movimento de inovação cresce em ritmo acelerado. Em 2019, havia cerca de 205 startups de bioeconomia na região. Em 2025, esse número chegou a 789, segundo dados da Jornada Amazônia — um aumento de quase 400%. O avanço indica que a floresta começa a se consolidar como polo de inovação a partir da biodiversidade.
Essas empresas não apenas extraem compostos da floresta: aprendem com os mecanismos que a natureza testou ao longo de milênios para reproduzi-los em outros contextos. “É o que a ciência chama de biomimética”, afirma Bernardes. “Os ecossistemas amazônicos são resultado de milhões de anos de evolução e funcionam como uma biblioteca viva de soluções. Quando integramos esse conhecimento com biotecnologia e ciência digital, surgem inovações inspiradas na natureza.”
São alternativas que usam estratégias da natureza para resolver problemas humanos. “A tecnologia e a ciência digital hoje permitem desenvolver ecossistemas que seguem as leis naturais — com interdependência, ciclos e regeneração —, em um movimento que supera a lógica linear e extrativista que ainda domina o desenvolvimento econômico clássico”, aponta.
Durante a missão, os pesquisadores conheceram iniciativas que ilustram esse cenário na prática. Uma delas é a BioSpin, startup de nanobiotecnologia de Manaus, que une saberes ancestrais e bioativos amazônicos para criar curativos avançados: o processo usa algoritmos de otimização bioinspirados — eles imitam a lógica da seleção natural para encontrar as melhores combinações e estruturas moleculares de ativos — para acelerar a cicatrização. Assim, a ciência de ponta é construída a partir do que a floresta já sabe fazer.
Essa abordagem é central nas deep techs — startups de base científica e tecnológica, fundamentadas em conhecimentos de áreas como biotecnologia, genômica, nanotecnologia e inteligência artificial (IA). Diferentemente de empresas tradicionais, elas levam anos para amadurecer, exigem investimento elevado e enfrentam riscos técnicos significativos, mas têm potencial para transformar setores inteiros. “São empresas que aprendem com a natureza e replicam soluções para a regeneração do planeta”, diz Bernardes.
Regeneração e inteligência social
Outro campo em expansão é a genômica, que estuda o conjunto completo do material genético dos organismos. Estima-se que mais de 90% da biodiversidade amazônica ainda não tenha sido analisada em laboratório. Isso inclui plantas, fungos e microrganismos nativos com propriedades anti-inflamatórias, antivirais, neuroprotetoras e antioxidantes que podem ser usados em novos medicamentos, cosméticos e alimentos.
Os pesquisadores perceberam que inovação, nesse contexto, não se limita à tecnologia: o saber de comunidades ribeirinhas e povos tradicionais é integrado ao rigor científico e a dimensão social aparece como condição indispensável. “Não existe regeneração ambiental sem regeneração social. É preciso incluir as comunidades, respeitar o conhecimento local e garantir a geração de renda. É fundamental traduzir a riqueza econômica em riqueza e bem-estar social para essas comunidades”, afirma Bernardes.
O respeito à inteligência social orientou a metodologia da missão: em vez de conduzir a pesquisa de forma isolada, a equipe organizou encontros e workshops com universidades, parques tecnológicos, instituições locais e jornalistas. “Existe um histórico de pesquisadores que vão para a região, coletam dados e vão embora, sem deixar benefícios. Nós envolvemos os atores locais desde o início para construir em conjunto.”
Além de mais ética, essa postura tende a produzir ciência mais consistente: quando os pesquisadores constroem laços de confiança com as comunidades locais, o acesso ao território e ao conhecimento tradicional se abre de forma mais ampla. E o conhecimento das populações ribeirinhas e dos povos da floresta é, em muitos casos, o ponto de partida para as soluções das deep techs.
Inovação em rede
Nesse processo, o grupo identificou que a inovação na Amazônia depende da arquitetura de redes: os ecossistemas locais devem se conectar com outras regiões do país. O parque tecnológico de Manaus, por exemplo, troca conhecimento com iniciativas em Belém, enquanto centros em Santa Catarina contribuem com formação e gestão de inovação. São Paulo, por sua vez, oferece acesso a capital e mercado. “Muitos estudos tratam esses ecossistemas de forma isolada, mas eles são complementares — existe clara interdependência entre eles”, explica.
Essa constatação tem implicações críticas diretas para políticas públicas. É comum que elas ainda vejam os nós dessa rede de forma isolada: financiam uma startup aqui, um laboratório ali, sem considerar o ambiente mais amplo em que essas iniciativas precisam crescer.
Falta estratégia de governança para coordenar esses diferentes atores. “É necessário refletir sobre a orquestração desses ecossistemas. Não adianta olhar só para a tecnologia: é preciso entender o ambiente em que ela está inserida e criar mecanismos de integração”, diz Bernardes. “Isso afeta diretamente organismos como a Financiadora de Estudos e Projetos [Finep] e fundações estaduais de amparo à pesquisa [FAPs], que podem estar perdendo a oportunidade de financiar conexões, não apenas projetos individuais.”
A governança desses ecossistemas também é urgente por outro motivo: o uso crescente de IA e de dados genéticos sensíveis em pesquisas de biotecnologia cria riscos novos. Alucinações de algoritmos — resultados incorretos apresentados por modelos de IA que parecem precisos — e vieses tóxicos embutidos nos dados de treinamento podem comprometer pesquisas inteiras se não houver supervisão qualificada.
A responsabilidade científica aumenta na mesma proporção em que a pesquisa se digitaliza — e essa governança é essencial para coordenar os diversos atores e integrar ecossistemas de inovação e regeneração. “O uso de dados genômicos e IA exige muita responsabilidade. Riscos como vieses tóxicos e alucinação requerem um novo modelo de governança para a pesquisa”, afirma. “O design e a governança de deep techs regenerativas desempenharão papel fundamental nas estratégias de neoindustrialização no Brasil. Muitos gestores ainda não dominam essas capacidades”, aponta.
O desafio é ainda maior quando se considera a dificuldade de transformar pesquisa em inovação no Brasil. Por isso, muitas deep techs enfrentam o “vale da morte”, a fase em que a tecnologia existe, mas não consegue chegar ao mercado. “Essas soluções têm alto risco e ciclo longo. Se não houver conexão com o mercado, elas morrem”, afirma Bernardes.
Uma das saídas apontadas pela pesquisa é a criação de plataformas digitais que conectem pesquisadores, empresas e investidores. Isso permite não apenas a sobrevivência das iniciativas, mas sua expansão até para mercados internacionais. “Hoje, muitas soluções locais estão desconectadas do mercado global. É preciso criar condições para que elas possam alcançá-lo”, diz.
Da Amazônia ao asfalto e ao mar
O potencial de aplicação dessas tecnologias vai muito além da Amazônia: a ciência da floresta tem aplicação direta nas metrópoles. Em grandes cidades como São Paulo, problemas ambientais acumulados poderiam ser enfrentados com soluções inspiradas na natureza. “A recuperação de rios, a qualidade do ar ou o uso da água. Todos esses aspectos podem se beneficiar dessas soluções.”
A aplicação de ciência profunda sincronizada às leis naturais permite que as metrópoles busquem na biologia o caminho para a cura de seus problemas ambientais e de saúde pública. “Empresas no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia [Cietec] já exploram a biodiversidade em busca de soluções científicas para grandes desafios urbanos”, destaca Bernardes.
Em São Paulo, algumas startups ilustram esse caminho. A Next Innovative Therapeutics (Nintx), por exemplo, desenvolve com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, medicamentos derivados de plantas da biodiversidade brasileira para tratar doenças multifatoriais, como câncer, distúrbios neurológicos e condições metabólicas. Para isso, usa tecnologias de sequenciamento genético, metabolômica e IA para mapear como compostos naturais interagem com o microbioma humano. Em 2024, a empresa captou US$ 10 milhões em rodada de Série A, valor sem precedentes para uma biotech farmacêutica brasileira (leia mais em https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/2696).
Já a Biolinker, fundada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), produz proteínas recombinantes sob demanda para aplicações em saúde, agricultura, biotecnologia industrial e cosméticos. Esses insumos aceleram o desenvolvimento de medicamentos e testes diagnósticos no país (leia mais em https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/2292).
Outro campo promissor é o oceano. A Amazônia Azul, a extensa zona litorânea brasileira com 4,5 milhões de quilômetros quadrados de mar territorial e zona econômica exclusiva, reúne vasta biodiversidade marinha amplamente inexplorada. Vale lembrar que os oceanos são responsáveis por mais da metade do oxigênio do planeta e desempenham papel crucial na regulação do clima.
As blue techs, startups que desenvolvem soluções tecnológicas para esse setor, buscam a sustentabilidade de oceanos, mares e recursos hídricos. As mesmas ferramentas que permitem explorar ativos amazônicos podem ser aplicadas a organismos marinhos — inclusive na recuperação de ecossistemas degradados — e o Brasil, com suas Amazônias Verde e Azul, ocupa posição única para desenvolvê-las. “A gente fala muito da floresta, mas esquece da biodiversidade marinha. Ali também existem oportunidades de negócios e soluções importantes, até mesmo para enfrentar a acidificação e a desertificação dos oceanos.”
Difusão da inovação
Bernardes lembra, ainda, que os mecanismos de inovação e difusão são vetores de aceleração da pesquisa científica e de sua introdução no mercado. Na teoria schumpeteriana — elaborada pelo economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) no início do século 20 —, a inovação só cresce e transforma a sociedade quando os indivíduos a adotam e percebem seu valor. “A ciência digital e a bioeconomia regenerativa impõem novos desafios às estratégias de inovação e difusão: não adianta produzir conhecimento se ele não chega à sociedade”, diz.
Para ele, esse é um dos dilemas não só da região amazônica, mas do Brasil. “Temos grandes conquistas na ciência, mas resultados ainda modestos em impacto da inovação e de sua difusão. São os mecanismos institucionais de difusão e o dinamismo competitivo de mercado que impulsionam a inovação. Esses entraves são estruturais na economia brasileira.”
O relatório Deep Tech Radar 2025 estima que a bioeconomia do conhecimento pode gerar até US$ 100 bilhões em receita até 2032. Esse potencial, no entanto, depende de que as soluções cheguem a quem precisa delas — e isso exige comunicação, engajamento e plataformas de internacionalização (leia mais em https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/3781).
O intercâmbio constante de pesquisadores e o fortalecimento de redes nacionais são os passos fundamentais para que a bioeconomia brasileira amadureça. Ao integrar ciência, tecnologia e saber local, e ao envolver diferentes regiões e atores, tem-se um modelo mais conectado com a realidade. “A ciência precisa estar orientada para a regeneração da vida. Não pode ser uma ciência isolada, feita só para si mesma ou para os negócios”, alerta Bernardes.
O Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), atua como catalisador desse movimento. Para isso, incentiva bionegócios sustentáveis, com apoio a startups, pesquisadores e cadeias produtivas da floresta. Para que as startups reconheçam umas às outras como partes de um mesmo sistema vivo, entretanto, o financiamento de mais empresas não é suficiente: é preciso governança adequada.
Em breve, os pesquisadores devem visitar Belém, Macapá, Rondônia e Florianópolis para mapear como os ecossistemas de inovação se conectam em diferentes contextos. O modelo adotado em Manaus — com jornalistas, professores e pesquisadores trabalhando juntos desde a concepção — será replicado. Não por protocolo, mas porque funciona.
Nesse cenário, a Amazônia deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a ser referência. Um território em que tecnologia, natureza e cultura e conhecimento dos povos se encontram e se completam na criação de soluções para desafios globais — a partir do que a própria natureza desenvolveu ao longo de milhões de anos.
Notícias
- CeMEAI abre inscrição para workshop de soluções matemáticas para problemas industriais
- Medicamento brasileiro para doenças de pele obtém patente nos Estados Unidos
- Aplicativo desenvolvido por startup apoiada pelo PIPE-FAPESP é premiado por inovação no turismo internacional
- Nova chamada da FAPESP apoiará inovações em saúde
Agenda
Chamadas
-
Programa Nacional de Apoio à Geração de Empreendimentos Inovadores Programa Centelha 3 São Paulo
Prazos: 21/05 (Fase 1 - Submissão das Ideias Inovadoras) e 17/08 (Fase 2 - Submissão dos Projetos de Fomento) -
Chamada de Propostas para o Programa PIPE Jornada Tecnológica - Saúde – Fase 1
Data limite para pré-propostas: 22/05 -
Programa de Pesquisa Alemanha – São Paulo (FAPESP e DAAD)
Data limite: 08/06 -
Iniciativa Internacional de Pesquisa sobre o Uso de Tecnologias Disruptivas para o Enfrentamento de Desafios Globais
Data limite: 09/06 -
Chamada de Propostas - Auxílio à Inovação Regular
Data limite: 15/06 -
Chamada de Propostas para o Programa PIPE Jornada Tecnológica Agro – Fase 1
Data limite: 17/06 -
Chamada FAPESP – Fundação Bracell – Fundação Itaú: Auxílio à Pesquisa para o Fortalecimento da Educação na Pré-Escola
Data limite: 19/06 -
Chamada conjunta FAPESP-NWO 2026: Biorrefinarias Integradas para um Futuro Circular
Data limite: 23/06 -
Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)
Fluxo contínuo -
BBSRC Pump-Priming Award (FAPPA) - Biotecnologia
Fluxo contínuo