Agritechs canadenses buscam oportunidades de expansão em São Paulo
03 de março de 2026Elton Alisson | Pesquisa para Inovação – Nos próximos dois meses, técnicos da fabricante canadense de equipamentos Clean Seed estarão no Brasil para testar o desempenho em lavouras no país de uma semeadeira de alta precisão. O equipamento promete reduzir o uso de fertilizantes e o desperdício de sementes, tendo sido projetado para semear uma ampla variedade de grãos, como arroz, trigo, soja, milho e algodão.
De acordo com engenheiros da empresa, a funcionalidade de plantio direto da máquina permite a semeadura em resíduos de arrozais compactados, por exemplo, eliminando a necessidade de queima da palha. Além disso, a tecnologia possibilita uma economia substancial no uso de água e a redução das emissões de gases de efeito estufa normalmente associadas ao transplante tradicional de arrozais — processo em que mudas cultivadas em viveiros são plantadas manual ou mecanicamente em campos alagados.
“Queremos testar o equipamento em solo brasileiro e estamos buscando parceiros e colaboradores para ingressar e expandir nossa operação no país”, disse Ailton Schoemberger, representante da empresa, durante o evento São Paulo-Canadá AgriTech Matchmaking, realizado no dia 23 de fevereiro na FAPESP.
O encontro reuniu 17 agritechs canadenses e quatro brasileiras apoiadas pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, com o objetivo de estreitar a colaboração em inovação agrícola entre o Canadá e o Estado de São Paulo.
O Estado de São Paulo é considerado um parceiro estratégico para o país norte-americano por concentrar o maior número de startups de base científica e tecnológica (deeptechs) no Brasil, atuantes principalmente no segmento de agro e alimentos. Os dados constam no relatório Deep Tech Radar Latam 2025, elaborado pela consultoria Emerge, em parceria com o Cubo Itaú, e lançado em setembro de 2025.
Esse foco reflete uma vocação regional marcada pelo agronegócio competitivo, posicionando a região em áreas de impacto direto para a sociedade e a segurança alimentar global, avaliam os autores do estudo.
“São Paulo é um polo de produção científica no Brasil, além de ser uma referência global em agronegócio, biotecnologia e pesquisa aplicada. Enxergamos uma enorme oportunidade de colaboração em áreas como agricultura sustentável, de precisão, tecnologias climáticas inteligentes, soluções digitais e segurança alimentar”, afirmou Joanne Lemay, cônsul-geral do Canadá em São Paulo, durante o evento.
A maior parte das agritechs surgidas no ecossistema de inovação paulista conta com o apoio do PIPE-FAPESP, sublinhou Paulo Schor, gestor de pesquisa para inovação da Fundação.
“O programa registrou, ao longo do tempo, um crescimento de projetos nas proximidades das rodovias Bandeirantes e Anhanguera, que ligam a capital às grandes universidades do interior do Estado. Além disso, essas rodovias compõem a rota da cana-de-açúcar em São Paulo. Por isso, não é surpresa que tenhamos vários projetos do PIPE relacionados a esse tema”, avaliou Schor.
Perfil das agritechs
De acordo com dados apresentados por Marcela Marini, analista sênior de grãos e oleaginosas do Rabobank – banco dos Países Baixos com foco no setor agroalimentar –, a maior parte das agtechs no Brasil atua diretamente "dentro da fazenda" (inside the farm), oferecendo soluções para gestão agrícola, controle de insumos, automação e monitoramento ambiental. Outra parcela expressiva (39,9%) está focada no "pós-fazenda", fornecendo soluções para logística, distribuição, processamento, embalagem e comercialização — conectando a produção ao consumidor final.
Aproximadamente 18,6% das empresas estão voltadas ao "pré-fazenda", fornecendo tecnologias para a compra de insumos, maquinário e acesso a crédito. “Os agricultores brasileiros estão muito interessados em soluções tecnológicas. Se isso significar melhores resultados em termos operacionais ou financeiros, eles adotam facilmente novas tecnologias”, avaliou Marini.
Alguns dos temas que têm atraído maior interesse das agtechs brasileiras são tecnologias de produtividade, inteligência operacional e soluções para a agricultura sustentável, apontou a especialista. Já as agritechs canadenses têm se destacado em áreas como agricultura de precisão e em ambiente controlado, robótica, automação, biotecnologia, proteínas à base de plantas e tecnologias agrícolas de baixo carbono.
A startup Crop Vue Technologies, por exemplo, desenvolveu uma tecnologia que permite identificar insetos no campo e prever infestações, auxiliando os produtores na tomada de decisão para a aplicação de defensivos químicos. “Estamos no Brasil buscando parceiros para a realização de testes em campo, além de produtores interessados em utilizar nossos equipamentos em suas operações”, disse Amy Jancewicz, presidente da empresa, que já atuou em mais de 20 países.
Validação no Brasil
As agritechs paulistas também podem auxiliar as empresas canadenses a validar suas soluções no território brasileiro, destacaram os participantes do evento. A Spectrum, por exemplo, desenvolveu com apoio do PIPE-FAPESP uma plataforma de monitoramento ambiental que combina sensores, conectividade de baixo custo e processamento de dados para gerar informações estratégicas diretamente do campo.
“Na agricultura atual, os dados estão por toda parte: satélites, modelos, painéis e inteligência artificial. Mas a obtenção de dados confiáveis e contínuos em nível de campo ainda é um dos maiores gargalos, especialmente em regiões agrícolas extensas e diversificadas como as do Brasil”, explicou Cynthia Cristina Martins Junqueira, gerente de pesquisa e desenvolvimento da empresa.
“Estamos à disposição de empresas internacionais em busca de dados de campo confiáveis, conectividade escalável ou de um parceiro de confiança para validar e implantar suas tecnologias em ambientes agrícolas reais”, afirmou Junqueira.
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