Participantes de painel realizado durante festival SP2B discutem importância de parceria entre academia e setor privado para impulsionar a inovação (foto: Elton Alisson/Agência Fapesp)

Empresas buscam parcerias com universidades para enfrentar mercados competitivos

25 de agosto de 2026

Elton Alisson | Pesquisa para Inovação – O Brasil convive com um atraso histórico na integração entre a sua produção científica e o setor produtivo para gerar novos produtos, processos e serviços, em comparação com os Estados Unidos e países da Ásia. Para superar essa defasagem, é preciso impulsionar parcerias para a realização de pesquisa colaborativa entre empresas de base científica e tecnológica instaladas no país com universidades e instituições de pesquisa, seguindo modelos como o dos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs) criados pela FAPESP nos últimos anos.

A avaliação foi feita por participantes de uma mesa-redonda realizada durante o festival de inovação e criatividade SP2B (São Paulo Beyond Business), que aconteceu no Parque Ibirapuera entre os dias 9 e 16 de agosto. Durante o encontro, o diretor de Inovação e Presença Digital da Claro, Rodrigo Duclos, contou quais foram as motivações da subsidiária brasileira da multinacional de telecomunicação e tecnologia para criar, em 2025, um CPA em Inteligência Artificial (IA) generativa e internet 5G – a quinta geração da tecnologia de rede móvel celular (leia mais em: https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/3591).

Fruto de uma parceria entre a empresa, a FAPESP e a Universidade de São Paulo (USP), o centro receberá um aporte de R$ 40 milhões ao longo de cinco anos, dividido entre os parceiros.

“Por meio do centro, queremos gerar patentes e propriedade intelectual, mas, fundamentalmente, criar novos produtos para transformar a vida, a experiência e os negócios dos nossos clientes”, afirmou Duclos.

De acordo com o executivo, os resultados das pesquisas realizadas no âmbito do centro podem contribuir para aumentar a competitividade da empresa no mercado de telecomunicações que, devido à quebra de fronteiras tradicionais, colocou as companhias do setor em uma arena de concorrência imprevisível.

“Com a internet móvel, as barreiras setoriais tradicionais [entre as empresas] desapareceram. Hoje competimos com empresas que nem imaginávamos há dez anos e somos medidos pelos nossos clientes com base nas experiências que eles têm com empresas tão diversas como a de compartilhamento de viagens oferecidas pelo Uber e a 99”, comparou.

Nesse ambiente turbulento, Duclos defendeu que as empresas tradicionais não conseguem inovar sozinhas e precisam de parceiros de peso para a realização de pesquisa na fronteira do conhecimento.

"Mudar a cultura da própria empresa é um caminho sem fim. E é uma batalha que precisa de resiliência e aliados, como a USP e a FAPESP”, avaliou.

Resistência histórica

Durante o painel, a professora da Escola Politécnica (Poli-USP) e uma das pesquisadoras principais do CPA da Claro com a FAPESP, Roseli de Deus Lopes, relembrou que, historicamente, a resistência a aproximar universidades e mercado não é uma exclusividade do Brasil. Na década de 1960, quando a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, decidiu incorporar a pauta de pesquisa voltada à inovação à sua tradicional missão de ensino, a mudança gerou fortes conflitos internos.

“Houve passeatas nas ruas, feitas por pessoas contrárias a esse tipo de parceria, porque elas achavam que essa pauta de pesquisa atrapalharia o ensino", contou.

Contudo, quando a pesquisa se consolidou nas instituições americanas, ela já nasceu de forma indissociável da inovação de mercado. No Brasil, embora a missão das universidades públicas estabeleça o tripé ensino, pesquisa e extensão, a pesquisadora apontou que ainda há falta de clareza sobre o papel desse último elo, frequentemente limitado a projetos puramente assistenciais ou filantrópicos.

Na avaliação dela, a extensão deve ser uma "troca dialógica" para compreender e resolver problemas reais em conjunto com a sociedade e com as empresas. Sem essa conexão, o conhecimento científico acaba isolado, afirmou a pesquisadora.

“Quando se fala de inovação, não adianta só ter uma pesquisa que fica na prateleira. Ela tem de ir para a sociedade. E a única forma de isso acontecer é por meio das empresas, virando produto ou processos incorporados no sistema", disse Lopes.

Como exemplo a ser seguido, Lopes citou a experiência da Universidade de Seul, na Coreia do Sul, onde são exibidas tecnologias desenvolvidas pela instituição em parceria com empresas. “Como estamos muito atrasados em relação a essa questão de parceria em pesquisa entre empresas e universidades, temos de ser mais inteligentes e andar mais rápido", avaliou.

Inovação na prática

Essa necessidade de velocidade e agilidade foi justamente o que motivou a Claro a estruturar o CPA, contou Duclos.

O novo centro está em instalação no campus da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo. Sob a liderança do professor da Poli Eduardo Zancul, a infraestrutura integrará mais de cem especialistas e cientistas vinculados a nove instituições parceiras, incluindo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Senai-SP.

Inicialmente, o CPA conduzirá cerca de 40 projetos de pesquisa aplicada, distribuídos em três verticais prioritárias: cidades inteligentes (smart cities), voltada ao desenvolvimento de soluções em sistemas urbanos inteligentes conectados; Indústria 4.0, com foco em automação e otimização de processos fabris com IA generativa e conectividade sem fio; e agrotecnologia (agrotech), com o objetivo de desenvolver tecnologias emergentes voltadas à produtividade e eficiência no campo.

Para garantir que as inovações sejam testadas em cenários práticos, o próprio campus do Butantã da USP será transformado em um "living lab" (laboratório vivo). A meta dos parceiros é que esse ambiente experimental permita modelar sistemas e gerar produtos escaláveis de relevância nacional e internacional.