App gratuito transforma smartphone em guia interativo para ecoturismo (imagem: divulgação/Fubá)

Aplicativo oferece roteiros educativos e interativos em áreas verdes e parques ecológicos

27 de julho de 2026

Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – As melhores histórias de um parque ecológico quase nunca são contadas. Elas estão nas árvores que levaram décadas para crescer no local, nos animais que dependem daquela mata para sobreviver ou na nascente que abastece uma cidade inteira. Sem alguém para revelá-las, porém, muitos visitantes deixam esses lugares com belas imagens registradas na memória ou nas redes sociais, mas pouca compreensão sobre o que conheceram.

Para contar essas histórias aos visitantes, a startup Fubá criou o aplicativo BoRa. A ferramenta digital funciona como um guia personalizado que apresenta, durante a caminhada por parques e outros espaços públicos, as relações entre natureza, arte, cultura e sustentabilidade. Assim, mais do que exibir curiosidades sobre fauna e flora, a plataforma trata a sustentabilidade de forma ampla, ao incorporar história, cultura e valorização da diversidade humana à experiência do visitante.

O app não foi criado para substituir monitores ou guias, mas para ampliar seu alcance. “A tecnologia não foi usada como fim em si mesma”, destaca Mayla Valenti, que é cofundadora e CEO da Fubá. “Ela amplia a educação ambiental e permite que cada visitante tenha uma experiência personalizada.” O Parque Ecológico de São Carlos, no interior paulista, por exemplo, pode receber cerca de 5 mil pessoas em um fim de semana, e acompanhá-las de forma personalizada seria impossível sem um suporte digital.

Com lógica gamificada, a solução, desenvolvida com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP,  utiliza o sistema de geolocalização do smartphone para acompanhar o deslocamento do visitante pelo local. À medida que ele passa por árvores nativas, lagos, patrimônio histórico e pontos de interesse cultural, o celular exibe figurinhas colecionáveis. Ou seja, não é preciso procurar placas, escanear QR Codes nem interromper o passeio. As figurinhas vêm acompanhadas de textos, áudios ou vídeos explicativos sobre aquele ambiente.

O conteúdo é desenvolvido a partir da curiosidade do público: as desenvolvedoras escutam dúvidas e comentários dos visitantes nos locais para alinhar a linguagem do aplicativo às expectativas reais deles.

Segundo Valenti, um dos desafios na criação do aplicativo foi evitar que o celular competisse com a natureza. O objetivo não é reter os olhos do usuário na tela do celular, mas usar o aparelho como uma lente que revela camadas invisíveis do ambiente. Por isso, os conteúdos são curtos, aparecem automaticamente durante o percurso e procuram incentivar a percepção do entorno e a reflexão sobre o impacto das ações cotidianas na conservação socioambiental.

Outro aspecto central no desenvolvimento da plataforma foi a acessibilidade. O BoRa reúne audiodescrição de imagens, tradução de conteúdo para Libras, contraste adequado de cores, tipografia planejada para facilitar a leitura e uso off-line — característica importante em áreas em que o acesso à internet é limitado. As informações estão disponíveis em português (tanto do Brasil quanto de Portugal), inglês, espanhol, francês, japonês e mandarim.

Atualmente, a equipe usa inteligência artificial na evolução da plataforma. A tecnologia já é aplicada no auxílio à tradução de conteúdos e à produção de narrações. A próxima etapa é adotá-la no apoio à produção de conteúdo — todas essas etapas têm supervisão humana para garantir que a linguagem esteja alinhada aos princípios definidos pela equipe.

A pesquisadora lembra que a educação ambiental vai além da preservação de florestas ou do descarte correto de resíduos. “Ela envolve aspectos sociais, culturais e até psicológicos”, diz. Essa visão orienta a produção dos conteúdos e a linguagem utilizada no aplicativo, que busca acolher públicos diversos e estimular reflexões, sem transformar os passeios em aulas.

Parque Nacional do Iguaçu

O principal laboratório do BoRa é o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, que abriga as famosas cataratas. Um dos destinos turísticos mais visitados do país, a unidade buscava mostrar aos visitantes que a experiência por lá não se resume às quedas d’água. Com o aplicativo, os turistas descobrem outras trilhas, conhecem aspectos da fauna e da flora locais e são estimulados a permanecer mais tempo na unidade de conservação. “Existe muito mais para conhecer lá além das cataratas”, resume Valenti.

Atualmente, o BoRa está sendo utilizado em dez destinos brasileiros e portugueses. Entre eles, além do Parque Nacional do Iguaçu, estão o Parque Nacional das Emas, em Goiás; roteiros urbanos em São Carlos (SP); uma trilha interpretativa na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); o Parque Lage, no Rio de Janeiro; e projetos em Lisboa, Porto e Sintra, em Portugal.

Paralelamente, a startup já cruza fronteiras. Depois de implantar roteiros em Portugal, inicia parcerias com instituições como o Royal Botanic Gardens, em Kew (mais conhecido como Kew Gardens), em Londres, e a organização não governamental Plantlife, ambos da Inglaterra, para desenvolver iniciativas de mapeamento e valorização das Áreas Importantes para Plantas (Important Plant Areas – IPAs) para a conservação de espécies no Brasil e no Reino Unido.

Além do público, o aplicativo beneficia quem administra os espaços. Ele permite aplicar pesquisas de opinião e oferece indicadores que ajudam a compreender como o público utiliza os ambientes e quais temas despertam mais interesse. Esses dados podem orientar decisões sobre infraestrutura, comunicação e educação ambiental.

Tendência mundial

A proposta responde a uma demanda crescente. Dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mostram que as unidades de conservação federais monitoradas pela agência federal receberam 25,5 milhões de visitas em 2024, o maior número já registrado. Desse total, os parques nacionais receberam 12,5 milhões de visitas — o que demonstra a consolidação desses espaços como importantes destinos de turismo de natureza e educação ambiental.

E a mudança é global: o Sustainable Travel Report aponta que 75% dos viajantes globais afirmam que desejam realizar viagens mais sustentáveis. Complementarmente, dados da Grand View Research indicam que o mercado exclusivo de ecoturismo movimentou US$ 215,5 bilhões no mundo em 2023, com avanço anual de 14,5%. No Brasil, a Revista Tendências do Turismo, do Ministério do Turismo, aponta a conexão com a natureza como fator importante na escolha dos destinos: 37% dos turistas escolhem o local motivados pelo desejo de contato com o meio ambiente.

Para o BoRa, os resultados já aparecem. O app soma mais de 50 mil downloads, reúne usuários de 56 países e recebeu, neste ano, o Prêmio Embratur Visit Brasil na categoria de soluções tecnológicas para promoção do turismo internacional no Brasil. Além disso, tornou-se destaque global do Google, que selecionou a história das fundadoras para campanhas de fomento ao empreendedorismo tecnológico feminino.

Já para Valenti, o maior reconhecimento acontece longe das estatísticas. “Queremos que as pessoas saiam do parque diferentes de como entraram”, afirma. A proposta do BoRa não é fazer o visitante olhar mais para o celular: é ajudá-lo a olhar melhor para a paisagem. A fotografia continuará sendo levada para casa, mas estará acompanhada de uma compreensão mais profunda do lugar visitado.

O aplicativo BoRa pode ser baixado pelo Google Play e pela App Store.