Análise da trajetória de mais de 400 empreendedores apoiados pelo PIPE-FAPESP mostra que a vivência internacional ajuda a circular conhecimento e é estratégica para a prosperidade de negócios de base tecnológica em São Paulo imagem: Pixabay/Geralt)

Experiência global aumenta a sobrevivência de empresas de tecnologia paulistas

30 de junho de 2026

Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Por décadas, pesquisadores e empreendedores brasileiros fizeram as malas em busca de formação e experiência no exterior. O que antes era visto apenas como um ganho pessoal agora ganha um novo contorno: um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que essa "circulação de cérebros" é um motor decisivo para que startups de tecnologia sobrevivam e prosperem em São Paulo.

Os resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram publicados em dezembro no Journal of Technology Transfer.

"A mobilidade funciona como um mecanismo sistêmico. Ela faz o conhecimento circular e ajuda a empresa a se adaptar melhor à concorrência. Mas esse impacto não é igual para todo mundo; ele varia de acordo com a intensidade tecnológica da empresa", explica Angélica Pigola, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e primeira autora do estudo, feito em parceria com os pesquisadores Bruno Fischer e Gustavo Salati.

Para chegar a essa conclusão, a equipe mapeou a trajetória de mais de 400 empreendedores que tiveram projetos apoiados pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP entre 2015 e 2020.

Os pesquisadores cruzaram informações sobre onde esses profissionais estudaram, por onde passaram e quais certificações internacionais conquistaram. Com isso, criaram uma métrica chamada “mobilidade”, que. Ela leva em conta a distância entre os ambientes que o empreendedor viveu — mudanças de instituição, regiões, níveis de formação e contatos fora da "bolha" onde o negócio nasceu, por exemplo.

Depois, usaram um algoritmo de aprendizado de máquina para cruzar esses dados de mobilidade com o nível de intensidade tecnológica das empresas que fundaram (alta, média ou baixa) e observar quais negócios resistiram ao tempo.

A escolha da sobrevivência como indicador não foi por acaso. “Sabemos que a empresa existe, mas não temos dados precisos sobre faturamento, lucro ou crescimento”, explica. “Como, em geral, dados financeiros padronizados e comparáveis são mais disponíveis para companhias de capital aberto, isso restringe nossa capacidade de medir o impacto real em empresas de capital fechado. Por isso, a sobrevivência tornou-se o indicador para cruzar o sucesso do negócio com o percurso do criador.”

A hipótese era de que empresas de alta tecnologia, que exigem liderança qualificada e acesso a mercados complexos, seriam as que mais ganhariam com a experiência global dos fundadores. "Nesses casos, a mobilidade é um ativo estratégico: estudar fora ou circular por ecossistemas diferentes amplia o repertório e facilita o diálogo em processos de internacionalização", diz a pesquisadora.

Os dados confirmaram a suspeita: a mobilidade ajuda muito na sobrevivência, principalmente em setores de média e alta tecnologia, em que o lugar onde a empresa se instala e o apoio que recebe fazem toda a diferença.

“O estudo não estabelece relações deterministas nem percentuais [de aumento da sobrevivência em razão da mobilidade internacional dos fundadores]. Em vez disso, indica que, em contextos de alta intensidade tecnológica, a circulação de pessoas amplia o acesso a conhecimento, redes e capacidade de adaptação”, pondera Pigola.

Políticas públicas sob medida

Os achados da pesquisa podem servir de bússola para políticas públicas mais inteligentes. Segundo Pigola, usar dados robustos ajuda a reduzir vieses e torna a tomada de decisão mais transparente. "Não faz sentido criar uma política nacional de mobilidade genérica e esperar que ela atenda a uma região do interior paulista", exemplifica. "Precisamos entender as particularidades locais. Com dados regionais sólidos, poderíamos desenhar políticas muito mais eficazes."

O estudo não para por aqui. Agora, a equipe trabalha com a teoria dos sistemas complexos adaptativos, enxergando ecossistemas de empreendedorismo como mosaicos: configurações únicas que mudam conforme o lugar e a história de cada negócio. "Queremos identificar padrões, mas sem cair na ilusão de que existe uma fórmula mágica", diz Pigola. "É um trabalho de longo prazo, que exige respeito à complexidade de cada contexto."

Para ela, a mensagem é clara: o Brasil precisa ver a mobilidade internacional como investimento estratégico, não como custo. "Precisamos usar os dados para melhorar nosso ambiente", conclui. Em um país que ainda patina para formar e conectar talentos, o estudo reforça que investir em experiências fora do Brasil pode ser tão vital quanto colocar dinheiro em uma startup.

O desafio da mortalidade

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram que 29% das empresas brasileiras fecham as portas antes de completar cinco anos. Para as startups de tecnologia, o problema é ainda maior: embora o país contasse com cerca de 20 mil delas ativas em 2023, segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), a mortalidade segue alta, especialmente entre as que não conseguem escalar ou sair do mercado doméstico. Estudos de observatórios do ecossistema de inovação, como os referenciados pelo Observatório Sebrae Startups e associações do setor, indicam que a mortalidade entre empreendimentos de alta tecnologia pode superar os 50% no mesmo intervalo, reflexo do profundo 'vale da morte' enfrentado por modelos de negócio que exigem longos ciclos de pesquisa e maturação antes da escala

A barreira do idioma é apenas a ponta do iceberg. "Sem entender o país que quer atingir ou com quem vai lidar, é quase impossível internacionalizar um negócio", diz Pigola. "O inglês é o básico, mas a vivência internacional traz algo a mais: ela quebra barreiras culturais e expõe o empreendedor a outras formas de resolver problemas."

Aqui, aparece um paradoxo: enquanto brasileiros esbarram em obstáculos estruturais — como a dificuldade de conseguir financiamento para estudar fora —, em países desenvolvidos essa troca é natural. "Quem nasce na Índia ou na Inglaterra tem o inglês como língua nacional ou aprendida desde cedo", compara a pesquisadora. "Eles têm muitas portas abertas. No Brasil, essa ainda é uma jornada difícil."

A falta de dados

A análise utilizou dados públicos e bases institucionais autorizadas, sempre de forma agregada e respeitando o sigilo dos envolvidos.

Pigola ressalta que, embora o Brasil tenha muitas bases de dados relevantes, elas raramente conversam entre si, estão desatualizadas ou são difíceis de acessar. Isso trava o avanço da ciência e faz com que políticas públicas sejam feitas no escuro. "Indicadores concretos ajudam a reduzir decisões baseadas em 'achismos'", afirma.

Essa falta de dados, conclui a pesquisadora, é um gargalo que fragiliza o ecossistema brasileiro e dificulta o trabalho de quem tenta entender, com rigor, como a inovação e o empreendedorismo funcionam no país.

O artigo Mapping entrepreneurial mobility: a machine learning perspective on firm survival and ecosystem dynamics pode ser lido em https://link.springer.com/article/10.1007/s10961-025-10305-8.