Inteligência artificial converte câmeras de segurança em sistemas de monitoramento ativo
26 de maio de 2026Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Se você assistiu ao filme Minority Report, de Steven Spielberg, talvez se lembre de Agatha: uma jovem capaz de antecipar crimes antes que eles acontecessem. A personagem não raciocina por dedução, não nomeia suspeitos nem consulta históricos; em vez disso, reconhece padrões em imagens que chegam até ela — e avisa antes que os desastres ocorram.
Essa ideia, descontado o teor sobrenatural da ficção, foi utilizada pela startup Noleak para otimizar o uso de câmeras de segurança. A solução, batizada com o nome da personagem, busca resolver uma condição bem menos cinematográfica e muito mais cotidiana: transformar milhares de horas de vídeo em informação útil.
A ferramenta não prevê o futuro, mas usa inteligência artificial (IA) para aprender os padrões de comportamento de ambientes monitorados e emitir alertas quando há alguma alteração. Desse modo, o sistema converte câmeras passivas em dispositivos de monitoramento ativo, descarta imagens que não exigem atenção e permite que um único profissional acompanhe milhares de telas sem se perder em notificações irrelevantes.
Para criar a solução, Rafael Libardi, fundador da startup, questionou os limites dos sistemas tradicionais: por que as câmeras de segurança ainda funcionam, em grande parte, como sensores de movimento sofisticados, mas pouco inteligentes? “Será que conseguimos prever crimes com IA a partir do aprendizado de comportamento e da identificação de desvios?”, indaga.
Da cibersegurança ao monitoramento físico
A lógica da plataforma Agatha foi testada inicialmente no universo da proteção de dados digitais, quando Libardi atuava em um projeto das Forças Armadas de um país da América Latina. O objetivo era identificar comportamentos anômalos em redes internas de computadores — técnica comum na prevenção de ataques cibernéticos — para detectar invasões de países estrangeiros à infraestrutura digital local. Para isso, o sistema utilizava o reconhecimento de padrões de comunicação incomuns na rede.
O nome da empresa, inclusive, provém de um serviço criado em 2018 para verificar se as senhas de usuários haviam sido expostas em vazamentos de bancos de dados — ideia próxima à que o Google e outros provedores oferecem hoje. Mesmo com a evolução do produto, a marca foi mantida e a Agatha surgiu como uma linha independente de negócios na empresa.
A transição ocorreu porque Libardi percebeu que o método poderia ser perfeitamente aplicado a imagens de câmeras de segurança. Para isso, bastava substituir os pacotes de dados por pixels e os ataques cibernéticos por comportamentos fora do padrão. “O que existia no mercado era basicamente a detecção de movimento e, para qualquer desvio, havia um alerta. Isso produzia milhares de notificações por hora e tornava o sistema pouco útil”, diz. “Decidi juntar o que eu sabia em cibersegurança com a segurança visual.”
Na transição para o monitoramento físico, em vez de operar por meio de regras fixas programadas, a plataforma observa o ambiente por um período e estabelece o que é considerado normal naquele contexto: quais locais costumam ter carros estacionados, quais horários registram maior movimento e em quais regiões o trânsito é frequente. A partir dessa linha de base, quando ocorrem desvios, o sistema emite alertas e os encaminha para a avaliação humana.
Libardi cita estudos sobre vigilância por vídeo para ilustrar os limites da atenção humana nesse tipo de tarefa. Pesquisas sobre monitoramento de CFTV (circuito fechado de televisão) indicam que a perda de foco ocorre de forma rápida. Um estudo clássico da área aponta que, após cerca de 12 minutos de observação contínua, um operador pode deixar de perceber até 45% da atividade na tela. Após 22 minutos, até 95% do que acontece passa despercebido, mesmo quando poucas câmeras estão em exibição.
Nesse contexto, um operador humano consegue acompanhar com qualidade apenas algumas dezenas de câmeras antes que a fadiga comprometa a vigilância. Com a triagem automatizada, o profissional pode supervisionar de 1 mil a 2 mil câmeras simultaneamente, porque recebe apenas os trechos que exigem análise. Na prática, a ferramenta filtra mais de 99,8% das imagens irrelevantes e preserva a atenção do analista para decidir sobre o que realmente importa. “Ele vê só o que está estranho”, resume o pesquisador.
O número de câmeras instaladas cresce continuamente em condomínios, empresas, vias públicas e eventos. A Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese) estima que o segmento faturou R$ 14 bilhões em 2024, o que representa um crescimento de 16,1% em relação ao ano anterior. O uso de IA em soluções do setor também avançou no período, passando de 54% para 64,3% em um ano, segundo os mesmos dados.
Nesse cenário, a diferença entre simplesmente gravar tudo e compreender o que foi gravado pode determinar a eficiência de políticas de segurança e de processos industriais. “Câmera sem análise é apenas um arquivo enorme que raramente é consultado de forma produtiva”, avalia Libardi.
Relatórios da consultoria McKinsey apontam a visão computacional — tecnologia que permite às máquinas interpretar imagens e vídeos — como uma das vertentes com maior potencial de impacto econômico na próxima década. No Brasil, a incorporação dessas ferramentas ocorre de forma desigual, mas crescente.
Tempo real e análise forense
Atualmente, cerca de 90% dos clientes da Noleak são empresas integradoras de segurança que instalam câmeras e operam centrais de monitoramento para terceiros. Com a plataforma Agatha, essas empresas tornam o serviço prestado mais eficiente, já que a IA funciona como uma camada adicional que automatiza a triagem das imagens.
Além do acompanhamento em tempo real, a tecnologia viabiliza a chamada análise forense, que consiste na revisão automatizada de grandes volumes de vídeo para isolar rapidamente os momentos em que algo atípico foi registrado.
Uma distribuidora de energia de Minas Gerais, por exemplo, enfrentava furtos recorrentes em subestações e, após cada ocorrência, a equipe técnica precisava revisar semanas de gravação. Com a intervenção da Agatha, horas de vídeo foram reduzidas aos dez minutos exatos que continham o momento da invasão. O procedimento permitiu identificar um prestador de serviço em uma área restrita; ele conhecia o local e agia contando com a premissa de que a extensão do material gravado tornaria o rastreamento inviável em tempo hábil.
A solução também tem sido cada vez mais utilizada em contextos distantes da segurança tradicional. As aplicações incluem a identificação do uso correto de equipamentos de proteção individual (EPI) — como capacetes, coletes e óculos —, a detecção de comportamentos que antecedem acidentes de trabalho e o controle de estoque em galpões.
O critério é o mesmo para todos os casos: se um operador humano consegue perceber o problema ao olhar para a tela, a tecnologia também pode ser treinada para detectá-lo. “Qualquer processo que depende do olho humano para análise de imagem pode, em princípio, ser automatizado. Basta pesquisa, contexto adequado e posicionamento correto dos dispositivos”, afirma Libardi.
Um exemplo dessa versatilidade é a identificação de desgaste em correntes de grande porte em uma indústria do setor agroindustrial em Belém (PA). Antes de adotar a ferramenta, as paradas não programadas de máquinas já somavam mais de R$ 100 milhões em prejuízos em um único ano. Com a tecnologia, o sistema passou a emitir alertas preventivos a partir da identificação de desvios sutis nos padrões, como uma vibração atípica, uma inclinação irregular ou uma mudança visual na textura de um componente.
Outro projeto utilizou a tecnologia para realizar a contagem de sacarias — como sacos de cimento, ração e grãos — em tempo real no Porto de Santos, substituindo processos manuais propensos a erros. A demanda surgiu a partir de uma publicação da Noleak no LinkedIn, movimento de atração de empresas que passou a integrar a estratégia comercial da startup.
O tempo de adaptação da ferramenta varia conforme a complexidade da aplicação. O monitoramento de uso de EPIs pode ser implementado em menos de 24 horas, enquanto a contagem de sacarias em portos pode ser ajustada em cerca de uma semana. Por outro lado, aplicações industriais muito específicas podem exigir meses de adequação dos algoritmos.
Cidades, eventos e condomínios
Em condomínios residenciais e bairros monitorados, a IA mapeia as placas dos veículos dos moradores e sinaliza quando automóveis desconhecidos permanecem nos arredores por tempo incomum. Em uma situação específica, a solução emitiu um alerta quando uma criança se aproximou do portão automático da garagem no momento da abertura. O sistema identificou que a combinação das variáveis — criança, movimento do portão e proximidade — configurava uma anomalia, permitindo que o operador interrompesse o mecanismo a tempo.
Eventos de grande porte também podem ser supervisionados pela ferramenta. Em festivais e festas populares, a combinação de análise comportamental e integração com sistemas públicos pode ampliar significativamente a capacidade de resposta das equipes de segurança.
Iniciativas públicas, como o programa Smart Sampa, na capital paulista, utilizam o reconhecimento facial para localizar suspeitos no dia a dia e em situações de aglomeração. Essa vigilância onipresente é uma tendência forte nas chamadas cidades inteligentes, cenário no qual a plataforma desenvolvida pela startup pode complementar o monitoramento ao focar na análise comportamental das imagens.
Especialistas destacam que tecnologias como o reconhecimento facial apresentam margens de erro e exigem validação humana. Libardi corrobora essa visão: “Nenhuma solução deve operar de forma isolada. Elas funcionam como filtros de precisão. Sempre deve haver verificação posterior porque a ferramenta não substitui o olhar humano; em vez disso, ela reorganiza as prioridades”.
O pesquisador reforça, ainda, a necessidade de uma infraestrutura básica adequada. “É preciso educar o cliente porque tecnologia não é mágica. A câmera tem de estar no lugar certo e apresentar uma qualidade razoável de imagem. Às vezes, o cliente acredita que vai conseguir identificar algo a 200 metros de distância utilizando uma câmera de baixo custo”, exemplifica.
O projeto demonstra que a vigilância do futuro vai além da mera instalação de novos dispositivos de captura. O desafio central reside em dotar as lentes já existentes de inteligência capaz de discernir o essencial em meio ao fluxo incessante de informações do cotidiano urbano.
Modelo de funcionamento
A plataforma pode operar tanto na nuvem quanto em servidores locais exclusivos — configuração comum em organizações com políticas rígidas de segurança da informação. Diferentemente de sistemas analíticos de vídeo tradicionais, que cobram por função a partir de regras inseridas manualmente, a tecnologia da startup opera como uma inteligência integrada. O cliente descreve o cenário que deseja monitorar e o sistema aprende o padrão de forma autônoma.
Em cenários simples, como a detecção básica de presença em áreas restritas, as soluções tradicionais de mercado podem demandar um investimento inicial menor. Contudo, em contextos complexos e com múltiplas variáveis, a abordagem adaptativa da startup apresenta melhor relação entre custo e benefício. “Para ambientes com muito movimento, diferentes câmeras e múltiplas análises simultâneas, a IA é consideravelmente superior e mantém uma faixa de preço competitiva.”
A empresa opera em todo o território nacional de forma 100% remota. O processo para conectar a solução a um sistema de câmeras preexistente leva menos de cinco minutos: após o cliente fornecer o acesso, a plataforma inicia a captura das imagens e o aprendizado automatizado é deflagrado. É possível definir, por exemplo, que uma determinada área delimitada não pode conter resíduos ou que pessoas não devem permanecer paradas por mais de um minuto em frente ao portão da garagem.
A tecnologia já existia em fase-piloto antes de receber apoio público, mas enfrentava o obstáculo do elevado custo de processamento em nuvem. O gasto era proibitivo para a escala comercial, e a operação só era viável temporariamente devido a créditos oferecidos a startups por grandes plataformas, como Amazon Web Services e Google Cloud. Sem uma otimização profunda, o serviço seria comercialmente inviável.
Com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, a startup pôde reestruturar sua arquitetura de dados e aprimorar os modelos matemáticos, viabilizando o ganho de escala. Libardi aponta que o fomento foi determinante para o negócio: “O pesquisador domina a técnica, mas nem sempre sabe como transformá-la em um produto comercialmente viável”.
A startup também passou por processos de aceleração no Reino Unido e no Canadá, o que permitiu o intercâmbio com institutos de IA de Montreal e Toronto, centros globais de pesquisa que ajudaram a consolidar a IA moderna. Para Libardi, o ecossistema de inovação brasileiro ainda enfrenta barreiras culturais e financeiras. Ele avalia que o empreendedor tecnológico precisa ouvir atentamente o mercado e compreender que a inovação disruptiva pressupõe uma infraestrutura adequada para que a precisão dos algoritmos não seja comprometida.
Limites e próximos passos
Embora a Noleak já atue em âmbito nacional e possua projetos-piloto internacionais operados por meio de parceiros integradores, Libardi pondera que a consolidação da internacionalização exige presença local e construção de credibilidade. “Confiar em uma empresa brasileira que você nunca viu é diferente de contratar uma empresa já estabelecida no mercado de segurança local.” Por essa razão, a estratégia de expansão internacional prioriza o estabelecimento de parcerias regionais sólidas e o investimento estruturado nos países-alvo. “Não basta colocar a plataforma on-line e esperar que os clientes apareçam.”
O objetivo de longo prazo da startup é utilizar a ferramenta para proteger até 1 bilhão de pessoas por meio de sistemas que aprendem e evoluem constantemente. O empreendedor conclui destacando que o apoio à pesquisa científica e a capacitação em empreendedorismo são pilares fundamentais para que cientistas consigam transformar teses acadêmicas em benefícios diretos e tangíveis para a sociedade.
Notícias
- Esalq-USP debate inovação e uso de drones agrícolas
- Brasil atrai quase metade dos pedidos de patente depositados nos países da América Latina e do Caribe
- Programa de inovação aberta seleciona startups para projeto de prevenção às fraudes
- FAPESP divulga lista de empresas do PIPE credenciadas para participação em eventos
Agenda
Chamadas
-
Chamada - Bolsa de Intercâmbio Internacional PRH-ANP (BEPE ANP)
Data-limite para submissão de propostas: 31/05 -
Escolas São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) - 20ª Chamada
Data limite: 01/06 -
Programa de Pesquisa Alemanha – São Paulo (FAPESP e DAAD)
Data limite: 08/06 -
Iniciativa Internacional de Pesquisa sobre o Uso de Tecnologias Disruptivas para o Enfrentamento de Desafios Globais
Data limite: 09/06 -
Chamada de Propostas - Auxílio à Inovação Regular
Data limite: 15/06 -
Chamada de Propostas para o Programa PIPE Jornada Tecnológica Agro – Fase 1
Data limite: 17/06 -
Chamada FAPESP – Fundação Bracell – Fundação Itaú: Auxílio à Pesquisa para o Fortalecimento da Educação na Pré-Escola
Data limite: 19/06 -
Chamada conjunta FAPESP-NWO 2026: Biorrefinarias Integradas para um Futuro Circular
Data limite: 23/06 -
Chamada Trans-Atlantic Platform (T-AP) Preparing for Tomorrow – Societies and Strategies in Times of Transition
Data limite: 08/07 -
Chamada de Propostas FAPESP e Fundo para o Desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia de Macau
Data limite: 21/07 -
Chamada de Propostas do Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica
Data limite: 10/08 -
Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE)
Fluxo contínuo -
BBSRC Pump-Priming Award (FAPPA) - Biotecnologia
Fluxo contínuo