Inovação brasileira previne lesões cerebrais em pacientes críticos em UTIs
24 de março de 2026Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Na terapia intensiva neurológica, todos aprendem cedo que o cérebro não espera: órgão mais sensível do corpo humano, ele pode sofrer danos irreversíveis após poucos minutos de hipóxia grave — comparativamente, um músculo suporta horas sem oxigênio. Para evitar esse comprometimento dos neurônios, é preciso agir rápido e de forma precisa.
Nesse cenário, decisões médicas muitas vezes têm como base os poucos indicadores exibidos nos monitores da Unidade de Terapia Intensiva (UTI). E a experiência clínica pode trazer surpresas desconcertantes: mesmo quando os parâmetros indicam estabilidade, o cérebro ainda pode estar em sofrimento.
Isso inquietava o médico intensivista Carlos Nassif. Mesmo quando tudo indicava que o tratamento seguia o protocolo correto — com pressão intracraniana (PIC) dentro do limite considerado seguro, pressão arterial e pressão de perfusão cerebral (PPC) adequadas —, alguns indivíduos tinham sinais de deterioração neurológica. “Eu tinha pacientes com todos os parâmetros considerados adequados que, mesmo assim, tinham o cérebro isquêmico — situação em que o cérebro recebe menos oxigênio do que precisa”, diz Nassif ao Pesquisa para Inovação.
A dúvida levou o especialista a conduzir um estudo clínico no Hospital 9 de Julho, em São Paulo, para avaliar uma tecnologia brasileira, com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, que analisa a dinâmica cerebral e a complacência intracraniana — a capacidade do crânio de acomodar aumento de volume sem que haja incremento significativo da PIC. O médico, que se dedica a pesquisa e assistência clínica no Hospital 9 de Julho e no Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP), coletou dados ao longo de cinco anos.
O objetivo era comparar dois modelos de manejo de pacientes neurocríticos: um grupo usou apenas o protocolo de tratamento com diretrizes internacionais atualizadas, enquanto o outro associou a ele a avaliação da complacência cerebral e da dinâmica intracraniana. A tecnologia que verifica a complacência foi desenvolvida pela startup brain4care a partir de pesquisas de Sérgio Mascarenhas (1928-2021), pioneiro da física aplicada no país.
O equipamento utiliza um sensor não invasivo — associado a uma cinta colocada ao redor da cabeça — para detectar micromovimentos do osso do crânio, vinculados às batidas do coração, e transformá-los em um sinal que permite acompanhar a complacência e a dinâmica intracraniana. Há até pouco tempo, acreditava-se que o crânio era rígido demais para permitir essa medição.
Monitoramento cerebral
Pacientes com lesões neurológicas são acompanhados a partir de diversos indicadores. Um dos principais deles é a PIC. Outro parâmetro muito utilizado é a PPC — força que impulsiona o fluxo sanguíneo para o cérebro —, obtida a partir da diferença entre a pressão arterial média e a PIC.
Esses números orientam decisões clínicas em UTIs no mundo inteiro. Apesar de diretrizes internacionais recomendarem valores para a PIC e níveis específicos de perfusão cerebral para evitar que o cérebro fique sem oxigenação adequada e sofra danos, na prática clínica esses parâmetros podem não refletir com precisão o que ocorre no tecido cerebral.
Com a ferramenta da brain4care, a equipe percebe a necessidade de intervenção antes mesmo de a PIC subir e pode agir imediatamente. É uma abordagem completamente diferente da postura reativa padrão: só atuar depois que o paciente piora. “Muitas vezes, quando o sintoma aparece, o dano já é irreversível”, alerta Nassif.
O pesquisador comparou a análise de complacência cerebral com exames tradicionais e com uma técnica considerada referência em monitoramento neurológico: a PtiO?, sigla para pressão parcial de oxigênio no tecido cerebral. Esse método invasivo requer a introdução de um sensor milimétrico diretamente no cérebro por meio de um pequeno cateter.
Uma vez instalado, o dispositivo mede a quantidade de oxigênio no tecido cerebral e permite avaliar se aquela região do cérebro recebe oxigenação suficiente para manter suas funções. “O que causa a lesão cerebral é um transtorno de perfusão e, consequentemente, uma oferta inadequada de oxigênio. Quando você consegue medir isso diretamente, tem uma referência muito importante”, explica o médico.
Por exigir um procedimento cirúrgico, sensores de alto custo, equipamentos específicos e equipe especializada para implantação e monitoramento, a PtiO? costuma ficar restrita a centros hospitalares de alta complexidade. Na realidade brasileira, raramente está disponível de forma ampla no Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo em hospitais de grande porte, como o HC da USP.
Historicamente, o tratamento de traumatismo craniano grave ou de acidente vascular cerebral (AVC) se apoia no monitoramento da PIC e da PPC. Diretrizes internacionais determinam que, se elas estiverem dentro de um alvo predeterminado, o paciente está seguro.
A comparação entre os métodos trouxe resultados inesperados: Nassif observou que mais de 80% dos pacientes avaliados apresentavam níveis perigosamente baixos de oxigenação cerebral mesmo quando PIC e PPC estavam no intervalo recomendado por protocolos internacionais. Isso significa que muitos doentes podem estar sofrendo danos cerebrais silenciosos em UTIs.
Essa situação é preocupante porque, muitas vezes, a lesão cerebral se agrava nos minutos, horas ou dias seguintes ao evento neurológico primário — processo conhecido como lesão cerebral secundária. A meta da equipe médica, então, não é apenas evitar a morte do paciente: é reduzir a chance de sequelas neurológicas graves, que levam a procedimentos como traqueostomia, sondas de alimentação e a alterações cognitivas e funcionais previstas na literatura médica.
“Às vezes, o pior desfecho não é a morte. É sobreviver com uma sequela severa”, avalia Nassif. “Nosso objetivo não é manter o paciente vivo a qualquer custo: é que ele seja produtivo. Não queremos que o resultado seja alguém incapacitado e que não interage com a família.”
O médico lembra do relato de um colega que o marcou. Uma jovem que deu entrada no hospital com sangramento cerebral grave causado por aneurisma ficou internada na UTI por mais de 60 dias. Quando voltou ao consultório para retorno, o médico que a acompanhara mal acreditou no que via: ela havia retomado o trabalho e não tinha disfunção neurológica.
Complacência intracraniana
A tecnologia da brain4care desafia interpretações clássicas da fisiologia cerebral, como a doutrina Monro-Kellie, formulada no século 18 pelos médicos escoceses Alexander Monro e George Kellie. Segundo esse princípio, o crânio é um compartimento rígido e o volume total na caixa craniana (composto por tecido cerebral, sangue e líquido cefalorraquidiano) permanece constante. Quando um dos componentes aumenta, outro deve diminuir para evitar elevação da PIC.
Ao comparar os dados da complacência intracraniana com exames como o doppler transcraniano (que mede o fluxo sanguíneo cerebral), Nassif observou que o dispositivo da brain4care permite identificar qual pressão arterial oferece melhor perfusão para cada paciente. Isso permite a individualização da conduta clínica. O cérebro lesado é tratado a partir de protocolos estáticos e médias populacionais — o que pode ignorar janelas cruciais de otimização terapêutica e comprometer a recuperação.
A morfologia da onda produzida a partir dos dados captados pelo sensor da brain4care permite saber se o cérebro está protegido ou em sofrimento. Nassif conta que, com a ferramenta, ele identificou que cada paciente tem uma pressão arterial ideal. O que é bom para um paciente de 70 anos com histórico de hipertensão pode ser diferente do que um jovem de 20 anos precisa.
Além disso, a pressão arterial pode variar de acordo com a gravidade da lesão e até mudar ao longo da jornada evolutiva do doente. “Não há um valor fixo adequado para todo mundo. É preciso avaliar a necessidade real do indivíduo a cada momento: um ajuste feito de manhã pode causar edema à noite”, explica Nassif. “Se a pressão arterial permanece elevada após a redução do edema cerebral, por exemplo, o fluxo excessivo de sangue pode provocar ou aumentar o edema e causar danos adicionais.”
Resultados do estudo clínico
O estudo de Nassif comparou dois grupos de pacientes neurológicos graves: um tratado com base nas diretrizes tradicionais e outro acompanhado adicionalmente com monitoramento de complacência intracraniana. Para reduzir possíveis distorções, a análise incluiu apenas indivíduos em estado crítico, a maioria em ventilação mecânica e (ou) com uso de medicamentos vasopressores.
Os resultados, descritos em artigo publicado na revista Cost Effectiveness and Resource Allocation, chamaram a atenção: doentes monitorados com brain4care apresentaram redução global de mortalidade (que foi de 5,88% em comparação com 37,25% no grupo que seguiu apenas o protocolo padrão), aumento no percentual de pacientes que receberam alta hospitalar com independência funcional (58,8% contra 27,5% no grupo controle) e período reduzido de internação. A permanência na UTI teve redução média de 3,7 dias e a hospitalar, de 4,14 dias — ou seja, a adoção da tecnologia libera leitos mais rapidamente.
Além do aspecto médico, há o impacto econômico. Segundo estimativas usadas na pesquisa, uma diária de paciente grave em UTI neurológica custa entre R$ 13 mil e R$ 15 mil. A economia por paciente chega a R$ 68.800, pois há diferença significativa nas readmissões hospitalares: 12,5% de readmissões no grupo que utilizou a complacência intracraniana contra 38,7% no grupo controle. O dobro dos doentes acompanhados com brain4care recebeu alta diretamente para casa, sem necessidade de hospital de retaguarda ou cuidados domiciliares.
Impacto potencial para a saúde pública
Lesões cerebrais traumáticas estão entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 50 milhões de pessoas sofrem traumatismo craniano todos os anos.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que esse tipo de trauma está entre as principais causas de internação hospitalar em jovens adultos — frequentemente associado a acidentes de trânsito. Outro grupo relevante inclui pacientes com AVC, segunda principal causa de morte global e uma das maiores fontes de incapacidade permanente.
Nesse contexto, tecnologias que melhoram o monitoramento cerebral podem alterar o destino de milhares de pacientes. Outra vantagem da brain4care é o fato de o equipamento não exigir cirurgia nem implantação de dispositivos no cérebro, diferentemente dos sensores intracranianos como a PtiO?. Isso dispensa a necessidade de equipes altamente especializadas para a implantação do dispositivo e amplia o potencial de uso em hospitais com diferentes níveis de estrutura.
Próximos passos
O estudo conduzido em São Paulo representa um primeiro passo na avaliação clínica da tecnologia. Novas pesquisas devem ampliar o número de pacientes e incluir diferentes centros hospitalares.
Nassif já considera aplicar a ferramenta em outras situações clínicas, como em pacientes com choque séptico, forma mais grave de sepse. Nessa condição, alterações na perfusão cerebral podem provocar déficits neurológicos, que afetam negativamente a evolução dos doentes.
Em UTIs, ela é uma das principais causas de morte. É comum que a equipe se concentre em acompanhar rins, pulmão e coração, e que o cérebro fique em segundo plano. Isso explica por que muitos sobreviventes de infecções graves apresentam declínio funcional neurológico, mesmo meses após a alta.
Apesar das discussões científicas e dos avanços tecnológicos, Nassif resume o objetivo da própria atuação de forma simples. “Quando um paciente volta para casa e retoma a vida depois de uma lesão cerebral grave, isso mostra que o tratamento valeu a pena.”
A tecnologia da brain4care coloca o Brasil na vanguarda e demonstra que tecnologia de ponta não precisa ser necessariamente importada nem proibitivamente cara — como dispensa o uso de sensores invasivos descartáveis de alto custo, a opção é bem mais barata. Ao captar o pulsar do cérebro através do osso do crânio, a solução monitora a vida de forma mais suave: saem os furos no crânio e entram os dados precisos.
Ao idealizar o método, Mascarenhas ouviu de colegas que mudaria a literatura médica se estivesse certo. E estava: ele provou que o crânio não é tão rigidamente estático quanto se imaginava ao reinterpretar os estudos de Monro e Kellie e abrir caminho para uma medicina personalizada e acessível para pacientes neurocríticos.
O artigo “Impact of hemodynamic management guided by intracranial compliance on the outcome of critically ill patients – preliminary results and exploratory economic evaluation” pode ser lido na revista Cost Effectiveness and Resource Allocation em https://link.springer.com/article/10.1186/s12962-026-00721-4.
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