A partir de biofeedback e gamificação, a solução ensina estratégias de autorregulação emocional a pacientes infantis com transtornos como TDAH e TEA (imagem/divulgação Self Intelligence)

Plataforma ajuda crianças com neurodiversidade e ansiedade

06 de janeiro de 2026

Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Uma criança de 7 anos tem uma crise de ansiedade na escola, fica frustrada e a raiva surge. Em vez de deixar a emoção explodir, ela se lembra do que aprendeu nas sessões de terapia: respirar de forma controlada. Minutos depois, a crise passa. Essa técnica já é consolidada, mas a startup Self Intelligence for Life a modernizou: os exercícios são aprendidos em uma plataforma gamificada.

A solução da empresa de São José dos Campos fundada em 2022 combina jogos, sensores biométricos e técnicas terapêuticas para ensinar crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) a controlar as emoções. E o sistema monitora o paciente enquanto ele joga.

Quando ele se acalma e respira adequadamente, ganha recompensas no jogo. “A plataforma monitora a criança em tempo real por meio de sensores”, explica Gabriella Faria, engenheira biomédica que integra a equipe do projeto e CEO da startup. “O jogo mede como a criança está se sentindo e dá benefícios quando ela consegue se acalmar e fazer a autorregulação.” 

A ideia para a criação da solução, apoiada pelo programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, em parceria com o Sebrae SP, surgiu do encontro entre pesquisa científica e necessidade clínica real. Durante o mestrado em engenharia biomédica, Gabriella participava de um grupo que estudava técnicas de respiração e métodos não farmacológicos de redução de estresse, coordenado pelas pesquisadoras Karina Casali e Tatiana Cunha e com apoio técnico e científico dos engenheiros Matheus Cardoso Moraes e Henrique Alves de Amorim. 

Uma das colaboradoras, a neuropsicopedagoga especialista em reabilitação cognitiva Renata Casali, relatou uma dificuldade frequente: a falta de ferramentas para acalmar as crianças durante as sessões. “Ela reclamava que às vezes levava 15 a 20 minutos nesse processo antes da atividade terapêutica, o que compromete o tempo e a efetividade da intervenção.”

Os pesquisadores fizeram entrevistas e pesquisas de mercado para confirmar a necessidade. “Esse cruzamento entre uma técnica que funciona e um problema real levou ao desenvolvimento da solução. Com uma equipe multidisciplinar que une clínica, engenharia, neurociência e fisiologia, desenvolvemos uma plataforma tecnicamente eficiente, terapeuticamente válida e atraente para as crianças.”

A tecnologia atende a uma necessidade crítica. Dados do Ministério da Saúde revelam que os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) por transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos aumentaram mais de 1.300 % nos últimos dez anos: foram de 1.850 registros em 2014 para mais de 24.300 em 2024. Entre os jovens de 15 a 19 anos, o índice é ainda mais expressivo. Paralelamente, o número de matrículas de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na educação básica cresceu 44,4% entre 2023 e 2024 e chegou a 918.877 alunos, segundo o Censo Escolar.

Na prática

O sistema da Self Intelligence for Life é composto por sensores biométricos, aplicativo com jogos e plataforma de gestão para terapeutas. Os sensores — disponíveis em três formatos: cinta torácica, braçadeira e clipe de orelha — monitoram a variabilidade da frequência cardíaca, um indicador validado para medir níveis de estresse. A tecnologia é semelhante à dos sensores presentes em smartwatches, mas processada com métricas específicas.

A plataforma tem atualmente oito jogos de complexidade variada. Quando a criança veste o sensor e inicia o jogo, a plataforma passa a entender seu estado emocional em tempo real. Os jogos incentivam a respiração controlada — uma técnica não farmacológica estudada como alternativa ou complemento a tratamentos tradicionais para TDAH e ansiedade.

Em um deles, a criança respira com uma baleia para aprender o padrão respiratório. Outro jogo, considerado o mais desafiador da plataforma, tem um caranguejo que precisa organizar objetos na ordem correta. “É superdifícil porque tem de respirar, colocar os objetos no lugar e na ordem corretos enquanto o vento leva o lixo embora. E não adianta ficar nervoso”, explica Gabriella. Indicado para crianças e adolescentes, o desafio exige que o jogador mantenha a calma e respire corretamente mesmo sob pressão. Cada jogo dura cerca de três minutos, tempo que já permite ter resultados.

Embora tenha sido desenvolvida para TDAH, a plataforma atende também crianças com TEA e sintomas de ansiedade. O design considera as especificidades desse público: sons, cores e estímulos foram pensados para crianças com maior sensibilidade sensorial.

O terapeuta tem papel fundamental no processo: planeja as sessões, escolhe os jogos adequados e apresenta o sensor de forma lúdica. “Ele fala para a criança que ela vai ouvir o próprio coração, que a baleia precisa de ajuda para se acalmar e por aí vai”, conta a pesquisadora.

A startup criou uma trilha que começa com jogos mais simples para crianças com TEA (que podem se frustrar com determinados desafios) e mais estimulantes para quem tem TDAH (que podem precisar disso para manter o foco). A aceitação dos pacientes costuma ser boa. Crianças com mais sensibilidade podem precisar de mais tempo de adaptação.

Adicionalmente, a empresa se preocupa com o uso consciente de telas por crianças. A plataforma deve funcionar como exercício físico: sessões curtas e regulares trazem melhores resultados do que o uso prolongado. A recomendação é de até três sessões diárias de três minutos em casa – apenas nove minutos por dia – e, no consultório, geralmente no início e no fim do encontro. “Recomendamos o uso consciente a partir da avaliação do terapeuta”, enfatiza Gabriella. O uso é indicado exclusivamente durante o período de acompanhamento clínico, não de forma autônoma pela família sem supervisão profissional.

Além da tela

O objetivo do treinamento com o sistema é que a técnica seja internalizada e aplicada em situações cotidianas. Terapeutas que já usam a plataforma confirmam que as crianças começam a usar a respiração controlada em momentos de estresse na escola, antes de provas, em discussões com colegas e assim por diante. “Depois de verem que conseguem superar desafios no jogo, elas percebem que isso faz bem para elas. Aí, passam a usar a técnica em outras situações.”

A cada sessão, o terapeuta pode obter relatórios detalhados e, assim, acompanhar métricas como sinais do sensor, tempo de jogo e desempenho. Os relatórios podem ser compartilhados com os pais para mostrar a evolução concreta da criança. A startup já comercializa a solução para clínicas particulares e terapeutas autônomos, com custo de R$ 9,90 por paciente no plano básico (para clínicas que já têm sensores compatíveis) ou R$ 49,90 quando a startup fornece os sensores.

Além disso, a Self Intelligence for Life busca atuar no setor público: atualmente, em parceria com a Secretaria de Saúde de São José dos Campos, a startup testa a solução em ambiente controlado (sandbox) para que a prefeitura avalie o produto. “Estamos validando com o setor público, tanto em saúde quanto em educação”, diz Gabriella.

A adaptação da solução para o SUS vai passar por desafios: é comum que a estrutura pública tenha computadores com conexão restrita à rede e bluetooths. “Nem tudo se encaixa perfeitamente: vai ser preciso experimentação para adaptar o produto”, reconhece a pesquisadora.

Perspectivas

Recentemente, a empresa participou da Web Summit, em Portugal. Durante a conferência, fez contatos importantes no mercado europeu e, agora, uma terapeuta parceira instalada no país vai apresentar a solução por lá. “Temos boas expectativas de levar a ferramenta para outros países”, revela Gabriella.

Outros jogos devem ser lançados periodicamente para expandir as habilidades disponíveis. Já estão em desenvolvimento opções voltadas para a fala, para crianças com dificuldade fonética, e com o uso de inteligência artificial, para personalização mais avançada. Está nos planos da startup, ainda, a expansão para outras faixas etárias. “Temos no planejamento uma versão não tão infantil, para atender outros grupos”, destaca Gabriella.

Segundo dados apresentados por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em 2021, uma em cada seis crianças e adolescentes no mundo é afetada por algum transtorno mental. No Brasil, entre 69 milhões de pessoas de 0 a 19 anos, há registro de 10,3 milhões de casos. A saúde mental infantil, como apontam especialistas, é altamente negligenciada — apenas uma parcela ínfima tem acesso a serviços.

Nesse contexto, a Self Intelligence for Life pode ajudar a democratizar o acesso a técnicas terapêuticas eficazes. A expansão para o SUS e mercados internacionais pode transformar a forma de lidar com ansiedade e emoções.