Tempo de colher

18 de dezembro de 2018

Fabrício Marques | Pesquisa FAPESP – O Fundo de Inovação Paulista (FIP), que investe capital de risco em empresas nascentes do Estado de São Paulo, ingressou em uma segunda etapa de atividade, depois de dedicar seus primeiros anos à análise de mais de 1,6 mil oportunidades de negócios para selecionar um portfólio de 20 companhias. Agora, seus gestores se concentram em estimular o crescimento das startups apoiadas, ajudando a administrá-las, para mais tarde vender sua participação, que é em média 35% do capital das empresas. O fundo vai encerrar sua operação em dezembro de 2021 e tem a meta de quadruplicar o capital. “Estão sendo aplicados R$ 105 milhões. Nosso objetivo é devolver R$ 420 milhões aos investidores”, diz Francisco Jardim, responsável pela SP Ventures, empresa gestora do fundo.

A previsão é de que o investimento tenha um retorno médio de 35% ao ano, embora o desempenho não seja homogêneo ao longo do tempo e se concentre na etapa final. Espera-se uma taxa de mortalidade ou insucesso de cerca de um terço das companhias selecionadas. “Um terço das empresas deve gerar prejuízo. Outro terço deve dar um retorno baixo e recompensar o capital investido apenas com um resultado incremental. E do outro terço esperamos um desempenho extraordinário, multiplicando o investimento entre 5 e 30 vezes”, explica Jardim. Segundo ele, essa taxa de fracasso é natural e esperada. “O risco gera fracassos, mas também é o que viabiliza o grande sucesso de algumas companhias.” Uma das empresas da carteira do fundo, a SmartBill, que havia sido selecionada em 2014, já foi vendida.

O capital do fundo provém de agências de apoio à ciência, tecnologia e inovação, como a Desenvolve SP, vinculada ao governo do Estado de São Paulo, que investiu R$ 25 milhões, a Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), com R$ 20 milhões, e a FAPESP, com R$ 10 milhões. Também contribuíram para o patrimônio do FIP o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), com R$ 20 milhões, a gestora de fundos privados Jive Investments, com R$ 20 milhões, e o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com R$ 10 milhões. É certo que o objetivo do FIP vai além de multiplicar o investimento. Como há uma grande parcela de recursos públicos em sua composição, existe a preocupação de desenvolver ecossistemas locais de inovação e estimular novos negócios em São Paulo.

Em Piracicaba, a SP Ventures criou em colaboração com a Raízen, joint venture entre Cosan e Shell e maior produtora e exportadora de açúcar e etanol do mundo, uma aceleradora de startups do agronegócio, batizada de Pulse Hub. Também se tornou parceira de outra iniciativa desse tipo na cidade, a Usina de Inovação. Cinco empresas financiadas instalaram-se ou se beneficiam desses espaços.

O FIP foi lançado em 2013 e o principal desafio dos gestores foi escolher as empresas em um ambiente de contínua retração econômica. A atmosfera hostil levou a uma mudança no perfil do fundo. A ideia inicial era de que empresas de tecnologia para agronegócio respondessem por 30% a 50% do portfólio – segmentos como tecnologias de informação e comunicação, saúde e novos materiais complementariam o investimento. Mas em 2016 os gestores decidiram intensificar a aposta na agropecuária e a proporção de recursos direcionados a empresas de tecnologia para o agronegócio alcançou 73% dos investimentos aprovados.

“Está havendo uma revolução digital no campo e identificamos no agronegócio o maior potencial de retorno. É um segmento em que o Brasil tem um mercado doméstico enorme e uma tendência agressiva de consumir tecnologia. Em 2017, o agronegócio cresceu 13% no Brasil enquanto os setores industrial e de serviços ficaram patinando. Concluímos que a convergência entre o agronegócio e a tecnologia estava relativamente imune às turbulências macroeconômicas do país”, diz Francisco Jardim.

Das 477 empresas de tecnologias agropecuárias analisadas, 12 foram selecionadas, ou 2,5% do total. Essa taxa de aproveitamento foi superior à das empresas de tecnologia da saúde (1% das avaliadas) e de tecnologia de informação para empresas (0,75%). Nenhuma das 187 empresas de novos materiais e nanotecnologia analisadas acabou escolhida. As vulnerabilidades das startups rejeitadas estavam relacionadas principalmente à falta de competitividade de suas tecnologias e à saturação do mercado em que atuam.

Apesar das dificuldades na economia, o montante investido por fundos de capital de risco em empresas nascentes do Brasil cresceu significativamente em 2017 em relação ao ano anterior. De acordo com a aceleradora de startups ACE, o investimento em venture capital (VC) no país alcançou R$ 2,18 bilhões no ano passado, sendo R$ 2,054 bilhões de investimentos estrangeiros e R$ 131 milhões nacionais. Em 2016, o total foi de R$ 1,4 bilhão em 2016 e em 2013, de apenas R$ 256 milhões.

Os dados foram obtidos na plataforma de informações comerciais Crunchbase. De acordo com Guilherme Lima, gerente de portfólio da ACE, o crescimento recente esteve associado ao surgimento dos primeiros unicórnios brasileiros – empresas com mais de US$ 1 bilhão de valor antes da abertura de capital –, que foram o NuBank e a 99 no primeiro trimestre de 2018, além das ofertas públicas iniciais de ações de empresas de tecnologia como PagSeguro, NetShoes, Banco Inter. “O Brasil lidera, de longe, o caminho dos investimentos VCs na América Latina”, escreveu Lima no site da ACE. Ainda segundo dados do Crunchbase, 76% dos investimentos em VC na América Latina tiveram o Brasil como alvo em 2017 – a Colômbia aparece em segundo lugar, com 14,1%, e o México em terceiro, com 7,5%.