Seis empresas desenvolvem tecnologia para produtos que aumentem as barreiras contra o vetor da Zika, dengue, chikungunya e da febre amarela (foto: James Gathany/Wikimedia Commons)

Pequenas empresas paulistas desenvolvem novas estratégias de combate ao vírus Zika

21 de fevereiro de 2017

As estratégias de combate ao vírus Zika e ao mosquito Aedes aegypti devem ganhar reforços nos próximos meses. Um grupo de seis pequenas empresas paulistas desenvolverá, com apoio da FAPESP e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), repelentes à base de novos compostos naturais e armadilhas para captura do Aedes, entre outras soluções, a fim de aumentar as barreiras contra o vetor da Zika, dengue, chikungunya e da febre amarela.

As empresas foram selecionadas em uma chamada lançada pela FAPESP e a Finep, no âmbito do acordo FAPESP e MCTI/FINEP/FNDCT – Subvenção Econômica à Pesquisa, por meio do PAPPE Subvenção, com objetivo de selecionar propostas de projetos que visem ao desenvolvimento de tecnologias para produtos, serviços e processos voltados ao combate do vírus Zika e do mosquito Aedes aegypti. O resultado da chamada foi anunciado no final de janeiro.

As propostas seguiram as normas do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP.

“Já vínhamos desenvolvendo o produto, independente de a nossa proposta ser selecionada na chamada. Mas, agora, com recursos da FAPESP e da Finep, o desenvolvimento deverá ser muito mais rápido”, disse Bruno de Arruda Carillo, diretor da DC Química, à Agência FAPESP.

A empresa, localizada em São Caetano do Sul, pretende viabilizar a aplicação do ramnolipídeo – um composto produzido por bactérias, como as Pseudomonas aeruginosa – como repelente.

A substância já era conhecida como um biossurfactante – um composto de origem natural que possui a capacidade de reduzir a tensão superficial (elasticidade da superfície) de líquidos e emulsionar compostos com diferentes polaridades (eletronegatividade), as polares e as apolares. É utilizado na indústria, principalmente na de produtos de limpeza, como detergentes, por sua capacidade emulsionante – de unir substâncias que não se misturam, como a água e o óleo–, e na de cosméticos, entre outras.

Nos últimos anos, contudo, começaram a surgir estudos relatando que a molécula também demonstra ter ação larvicida e repelente.

A fim de comprovar essas propriedades propaladas do ramnolipídeo, os pesquisadores da empresa realizaram testes preliminares. Os resultados dos testes da substância como larvicida para matar larvas do mosquito Aedes aegypti, entretanto, não foram satisfatórios. Com base nessa constatação, a empresa decidiu testar a sua aplicação como repelente.

“Fizemos alguns testes iniciais e os resultados foram muito bons. Estimamos que em dois anos consigamos disponibilizar amostras para empresas interessadas a fim de viabilizar a produção de repelentes à base desse composto”, disse Carillo.

Tempo de repelência

Um dos maiores desafios tecnológicos para o uso do ramnolipídeo como repelente, de acordo com o pesquisador, é fazer com que apresente ação de repelência pelo mesmo período que as matérias-primas convencionais.

A molécula sintética DEET (N,N-Dietil-m-toluamida) usada na composição da maioria dos repelentes comercializados hoje no mercado brasileiro tem ação de duas horas. Já a icaridina – substância derivada da pimenta, que começou a surgir na formulação de repelentes recém-lançados no Brasil – pode ter efeito de até 10 horas, caso a temperatura não seja superior a 30 °C e a pessoa não tenha entrado em contato com água.

O problema é que o DEET é tóxico e, por isso, só pode ser reaplicado três vezes ao dia, o que possibilita uma proteção total de até seis horas. Já a icaridina ainda é muito cara, comparou Carillo.

“Ainda não conseguimos atingir o tempo mínimo de repelência que desejamos, que é de duas horas. Mas estimamos que conseguiremos atingir essa meta por meio de mudanças na formulação do produto, que deverá ser um líquido”, afirmou.

Já a Nanomed, uma spin-off surgida na USP, pretende fazer com que o óleo essencial do cravo-da-índia (Eugenia caryophyllata) tenha ação de repelência de oito horas.

Para isso, os pesquisadores da empresa pretendem encapsular a molécula em partículas na escala nanométrica (da bilionésima parte do metro) para que a sua liberação seja controlada. Dessa forma, será possível assegurar a atividade de repelência por oito horas, o que não é possível hoje por meio das formulações convencionais.

“O óleo essencial do cravo-da-índia é uma substância muito volátil [transforma-se facilmente em gás ou vapor quando exposta ao ar]. Por isso não dura muito tempo em condições normais de temperatura”, explicou Amanda Luizetto dos Santos, diretora da Nanomed.

Os repelentes caseiros à base de uma mistura de óleo essencial de cravo-da-índia e álcool, por exemplo, têm ação de repelência de apenas 30 minutos, disse a pesquisadora.

A fim de atingir as oito horas de ação de repelência almejada, a empresa pretende encapsular o composto natural em nanopartículas que romperiam gradativamente, liberando o produto de forma controlada e modulada – a exemplo das nano e micropartículas produzidas hoje para encapsular fragrâncias de amaciantes e produtos cosméticos.

“Nosso objetivo é tanto disponibilizar o ativo encapsulado como matéria-prima, como também desenvolver produtos finais à base dele, em creme e aerossol”, afirmou Santos.

Armadilha para mosquito

Em vez de repelir o Aedes aegypti, a empresa Bio Controle, sediada no município de Indaiatuba, pretende capturar e prender as fêmeas do mosquito – principalmente as grávidas – em armadilhas para inibir a reprodução e a proliferação do mosquito.

Para isso, pretende utilizar compostos químicos sintéticos, como ácidos graxos, que mimetizam os odores dos humanos, além de luz com intensidade e cores específicas, para atrair os mosquitos para as armadilhas.

A ideia é que, ao se aproximar das armadilhas atraídos pelo odor exalado pelos compostos químicos sintéticos liberados de forma controlada, os mosquitos fiquem grudados em uma superfície adesiva que será colocada em torno dos dispositivos.

“Já desenvolvemos e comercializamos uma série de armadilhas para o monitoramento e coleta em massa de diversos insetos que atacam culturas agrícolas utilizando feromônios [hormônios sexuais] sintéticos”, disse Mário Yacoara de Menezes Neto, diretor da empresa.

“Nosso objetivo, agora, é testar outros compostos químicos sintéticos como atrativos em armadilhas para capturar o Aedes aegypti de forma mais simples e prática”, afirmou.

A empresa pretende, com o apoio da FAPESP e da Finep, desenvolver protótipos de armadilhas que possam ser usadas tanto pelos agentes de saúde pública, como também pela população em geral.

“Como as armadilhas deverão ser atóxicas, não necessitariam de uma regulamentação específica para serem comercializadas”, estimou Menezes.

Por sua vez, a empresa Barth/Inovatech pretende desenvolver um teste de diagnóstico sorológico rápido e de baixo custo para o Zika vírus, utilizando a plataforma Elisa, para disponibilizá-lo, principalmente, ao Ministério da Saúde.

Para atingir esse objetivo, os pesquisadores vinculados à empresa estão modificando algumas técnicas de biologia molecular utilizadas no desenvolvimento dos testes de diagnóstico existentes hoje, que elevam o custo do processo.

“Um kit de diagnóstico de Zika vírus para 100 amostras desenvolvido por uma empresa estrangeira custa no Brasil hoje entre R$ 4 mil e R$ 6 mil. Pretendemos desenvolver um teste para esse mesmo número de amostras que custe entre R$ 1,2 mil e R$ 1,7 mil”, disse Danielle Bruna Leal de Oliveira Durigon, pesquisadora responsável.

A chamada esteve aberta a pesquisadores vinculados a microempresas, empresas de pequeno porte, pequenas empresas, médias empresas brasileiras, sediadas no Estado de São Paulo.