Apoiado pelo Programa PITE-FAPESP, Centro de Biologia Química de Proteínas Quinases investiga substâncias que regulam diversos processos biológicos (foto: Miguel Boyayan/Revista Pesquisa FAPESP)

Parceria entre Unicamp e Aché foca em enzimas pouco conhecidas para descobrir novos medicamentos

18 de outubro de 2016

A parceria entre universidade e empresas pode constituir ambientes férteis para iniciativas inovadoras quando articula expertises distintas em torno de um desafio comum. Exemplo disso é a associação entre o Centro de Biologia Química de Proteínas Quinases da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Aché Laboratórios Farmacêuticos.

“Essa parceria nos traz uma série de benefícios, como interação com cientistas de alto calibre, atração de talentos e publicações. E ainda pode nos dar um bilhete premiado se um alvo biológico tiver aplicação terapêutica”, resume Cristiano Guimarães, diretor da Área de Inovação Radical do Aché.

Apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), o Centro tem foco na investigação de quinases, enzimas que regulam diversos processos biológicos e, por isso, são cruciais para se entender o funcionamento e as disfunções do corpo humano. No entanto, a ciência ainda pouco sabe sobre essas enzimas: das 500 identificadas no genoma humano, apenas 40 foram bem estudadas, mas já resultaram em 31 medicamentos, a maior parte deles utilizados no tratamento de câncer.

O desafio do Centro da Unicamp e do Aché é desvendar o papel das quinases. Para tanto, são utilizadas sondas químicas, pequenas moléculas que se ligam com especificidade a uma determinada quinase, modulando ou silenciando sua função.

“O Aché entrega ao Centro essas sondas químicas para que pesquisadores testem a modulação das quinases em diversos ensaios. Essas sondas são uma espécie de chave e o alvo biológico – as quinases, no caso –, a fechadura. Precisamos encontrar uma chave específica para cada fechadura”, compara Guimarães. Na busca desse alvo – que poderia levar à descoberta de um fármaco, o tal “bilhete premiado” –, a relação entre a empresa e os pesquisadores da Unicamp é orientada por regras muito específicas, já que o Centro integra o Structural Genomics Consortium (SGC), uma parceria público-privada que reúne cientistas de universidades, indústrias farmacêuticas e entidades sem fins lucrativos em cinco países, além do Brasil, todos empenhados na descoberta de novos alvos biológicos com potencial terapêutico, e que opera no formato de consórcio aberto.

“O consórcio estabelece que a descoberta de novos alvos não será feita de forma protegida ou proprietária: as sondas químicas são doadas pelas indústrias a pesquisadores espalhados por todo o mundo e as descobertas são publicadas. Trata-se de um estágio pré-competitivo de pesquisa”, sublinha Guimarães.

O modelo de consórcio aberto reduz a redundância na pesquisa, um problema inevitável quando a investigação de um alvo é feita em silêncio. “A empresa que está na frente não revela que falhou e as demais fracassam em sequência, gastando bilhões”, ele diz. Esse formato de parceria também reduz o alto risco que caracteriza esse tipo de investigação. “A modulação do alvo pode não ter aplicação terapêutica ou ainda gerar algum tipo de toxicidade em humanos, ” exemplifica Guimarães.

Ressalte-se que a descoberta da “chave específica de uma fechadura” é apenas o começo. Não se terá chegado, ainda, a um novo medicamento, cujo desenvolvimento exige uma série de testes pré-clínicos e clínicos em humanos para atestar a eficácia e segurança. “Quando um alvo é validado, a pesquisa se fecha e fica centrada na indústria, que inicia então as etapas de desenvolvimento de um novo medicamento num modelo proprietário, e aí sim, de forma silenciosa”, explica Guimarães.

O Aché e o Centro de Biologia Química de Proteínas Quinases da Unicamp colaboram em dois projetos. “Estamos trabalhando para começar a redação de um artigo científico. Será o primeiro que a empresa publicará no âmbito desta parceria”, adianta Guimarães.

A parceria do Aché com universidades já existia, mas seguia a dinâmica tradicional: “O pesquisador tentando entender as novas descobertas e a indústria atenta para ver se alguma dessas descobertas teria potencial terapêutico e comercial”, ele sublinha. O consórcio reforça e, ao mesmo tempo, “universaliza” essa relação entre a academia e a indústria na fase pré-competitiva da pesquisa. “Não se trata de uma relação nova, mas de uma relação mais colaborativa e de maior dimensão, pautada pelo princípio da universalização, sem que nenhuma das partes deixe de lado a sua missão.”

Guimarães cita um dos argumentos utilizados pelo CEO do SGC, Aled Edwards, para sublinhar os benefícios da relação consorciada para o desenvolvimento de fármacos na fase de pesquisa: “A melhor química medicinal é realizada pela indústria farmacêutica e a melhor biologia pela universidade. O consórcio junta o que há de melhor nos dois lados”.

Esse formato de parceria cresceu e se consolidou com a “crise das big farmas”, devido à expiração de patentes de medicamentos e a não reposição destas receitas com medicamentos inovadores na mesma proporção, entre outros problemas. “A atenção então se deslocou para descentralização de P&D, parcerias e a busca de inovação externa.” O novo modelo prevê, ainda, outros desdobramentos, incluindo a criação de joint-ventures. “Podemos nos associar para fazer codesenvolvimento.”

“Aprender fazendo”

O CEO do SGC considera que a parceria entre o SGC Unicamp e o Aché resultará em vantagens competitivas para o laboratório brasileiro. “O Aché assumiu um compromisso ousado de se transformar em uma empresa de inovação radical. E um dos desafios que terá de enfrentar é adquirir todas as habilidades necessárias para conduzir pesquisas nos estágios iniciais do desenvolvimento de novas drogas”, afirma Edwards.

Uma alternativa para responder a esse desafio é contratar pessoas e avançar lentamente. “Mas Guimarães encontrou um outro caminho: firmou parceria com o SGC para focar na descoberta de drogas por meio de inovação aberta. A ideia é ‘aprender fazendo’, interagindo com um grande número de cientistas do SGC que já trabalharam na indústria e evitando as complexidades legais da propriedade intelectual, uma vez que o projeto é conduzido de forma aberta”, completou Edwards.

E a colaboração no âmbito de um projeto de ciência aberta consolida a “parceria ideal”, ele avalia. “A equipe do SGC em Campinas beneficia-se da oportunidade de trabalhar com os excelentes químicos do Aché que, por sua vez, aprendem sobre o desenvolvimento de fármacos orientado pela estrutura tridimensional da quinase. Ao final do projeto, beneficia-se também o domínio público, já que o laboratório compartilhará o conhecimento de um composto valioso, sem restrições”, ele afirma. E acrescenta: “Essa forma de parceria está disponível para qualquer empresa disposta a comprometer-se com a ciência aberta”.

Leia mais: