Inteligência Artificial: Imitação do cérebro

22 de janeiro de 2019

Suzel Tunes | Pesquisa FAPESP – A inteligência artificial (AI) é um dos poucos campos da ciência que têm uma data definida de início, segundo Marcelo Finger, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP). Foi em 1956, durante uma conferência realizada no Dartmouth College, em New Hampshire, Estados Unidos, que o cientista da computação John McCarthy usou pela primeira vez a expressão “inteligência artificial”. Batizava assim um novo campo do conhecimento que, desde a década de 1940, buscava produzir modelos matemáticos que simulassem o funcionamento dos neurônios cerebrais.

No entanto, essa abordagem biológica esbarraria nas limitações técnicas da época. Não existiam computadores capazes de processar a imensa quantidade de dados necessária à evolução da rede neural. Desenvolveu-se, então, outra vertente da IA chamada de “simbólica” e baseada em linguagem de programação, que opera por meio de regras para resolver um problema. Popularizaram-se os sistemas especialistas, alimentados por conhecimentos previamente definidos.

Um desses primeiros sistemas, criado pelo norte-americano Edward Shortliffe no começo da década de 1970, recomendava uma seleção de antibióticos para ajudar médicos no tratamento de infecções bacterianas. “No Brasil, uma das precursoras nesse campo foi Maria Carolina Monard, professora do ICMC-USP, de São Carlos”, destaca a cientista da computação Ana Carolina Lorena, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Segundo ela, alunos de Monard desbravaram algumas áreas de IA pouco exploradas no Brasil. “Um exemplo é Maria das Graças Volpe Nunes, também do ICMC-USP, que se tornou referência em processamento de linguagem natural no país e chegou a liderar o projeto de desenvolvimento do corretor ortográfico de português do Brasil disponível na ferramenta Office do sistema operacional Windows”, afirma.

No 1º Simpósio Brasileiro de Inteligência Artificial, realizado em 1984 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, predominaram os trabalhos com sistemas especialistas. No entanto, a exemplo do que ocorria no exterior, também no Brasil as pesquisas em IA, especialmente no campo das redes neurais, já se desenvolviam muito tempo antes.

Um dos pioneiros no estudo de redes neurais no Brasil é Nelson Mascarenhas, professor aposentado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e docente do Programa de Mestrado em Ciência do Centro Universitário Campo Limpo Paulista. Engenheiro eletrônico, ele havia concluído seu mestrado em 1969 pesquisando máquinas elétricas, quando resolveu mudar de área. “Decidi estudar processamento digital de imagens, que era uma área considerada meio exótica”, diz.

Mascarenhas iniciou suas pesquisas em um dos primeiros laboratórios do mundo de processamento digital de imagens, na University of Southern California, Estados Unidos. Ao concluir o doutorado, em 1974, o pesquisador trabalhou alguns anos no ITA e depois no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que já contava com um programa de sensoriamento remoto. “Fomos os únicos, durante muito tempo, na área de processamento digital de imagens e reconhecimento de padrões”, conta.

Apesar dos avanços, há desconfiança com relação ao futuro. “Países como França, Inglaterra e China criaram políticas públicas para terem protagonismo em IA. No Brasil, essa oportunidade está sendo desperdiçada”, ressalta o cientista da computação André Ponce de Leon Carvalho.

Opinião semelhante tem o cientista da computação Sílvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco e presidente do Conselho de Administração do Porto Digital, parque tecnológico do Recife. “O Brasil tem grande capacidade de absorção de tecnologia e é responsável por metade de todo o mercado de tecnologia da América Latina”, diz. “Mas falta estratégia. Desde a década de 1970, não se estabeleceu um grande desafio tecnológico. Não sabemos em que campo queremos competir. Enquanto isso não ocorrer, não teremos competitividade.”

Relatório lançado no começo de dezembro pela editora Elsevier reforça essa percepção. Intitulado ArtificiaI intelligence: How knowledge is created, transferred, and used, o documento se concentrou na China, Estados Unidos e Europa. Os dois primeiros são apontados como líderes na produção de pesquisa nesse campo, enquanto os países da Europa estão entre os lugares de maior diversidade de estudos a respeito de IA. Índia e Irã ganham destaque como centros emergentes.

Roberto Marcondes, do IME-USP, está entre os especialistas que escreveram no documento e alertou para a necessidade de se desenvolver novos indicadores que permitam descrever melhor a pesquisa em IA. “Tradicionalmente, os avanços nas pesquisas são descritos em artigos publicados em periódicos ou comunicado em conferências”, diz. “Agora, com o crescimento da IA, está claro que esses indicadores cobrem apenas uma fração dos avanços realizados no setor”, afirma.

No site da Elsevier, há indicadores sobre IA no mundo, no AI Resource Center. Um deles traz o levantamento das publicações científicas sobre o tema de 1998 a 2017. A China, com 134.990 publicações, está em primeiro lugar, seguida pelos Estados Unidos (106.600), Índia (36.736), Reino Unido (35.302) e Japão (35.302). O Brasil fica em 15º lugar (12.094). No ranking da colaboração internacional, o país está em 18º, com 2.979 produções feitas em parceria com pesquisadores do exterior. Estados Unidos (31.174), China (21.547) e Reino Unido (16.054) são os primeiros.